março 10, 2026
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10/03/2026

Obras na Rocinha representam avanço, mas cidade precisa de planejamento contínuo

As ações previstas para a maior favela do Brasil representam uma possível avanço no enfrentamento das desigualdades urbanas. Contudo, sua implementação requer atenção a diversos fatores para obter resultados efetivos.

Espaços periféricos, como favelas e loteamentos autoconstruídos, são uma realidade constante nas principais cidades do país. Essas áreas, muitas vezes erguidas sem financiamento oficial e com recursos limitados, costumam apresentar deficiência em infraestrutura e serviços públicos essenciais, cuja responsabilidade cabe às administrações municipais e federais.

A cidade do Rio de Janeiro destaca-se por ter a maior favela brasileira em termos populacionais, a Rocinha. Entre as vinte áreas mais populosas do país, ela é a que concentra o maior número de moradores, ao ponto de, se fosse uma cidade independente, figurar entre as mais populosas do país. Recentemente, foram anunciados investimentos de aproximadamente 350 milhões de reais para obras na região, envolvendo órgãos federais e municipais. Apesar de serem recursos considerados modestos, eles representam passos importantes.

Apesar de experiências positivas no país na urbanização de favelas e assentamentos populares, sua expansão e continuidade permanecem limitadas. A ausência de financiamento contínuo, estruturas institucionais permanentes e a invisibilidade de muitos territórios dificultam o enfrentamento das desigualdades, que se refletem na insuficiência de saneamento, problemas de mobilidade, moradias precárias e escassez de serviços públicos, incluindo segurança.

Esses fatores prejudicam não apenas a saúde e o bem-estar dos moradores de áreas vulneráveis, mas também impactam a economia nacional. Cidades que representam centros de conhecimento, inovação e trabalho são essenciais para o desenvolvimento econômico; o atraso na urbanização plena dessas áreas fanha a circulação de recursos, contribuindo para a desaceleração do crescimento econômico do país, que hoje ocupa a 11ª posição no ranking mundial.

O acordo recente entre o governo federal e a Prefeitura do Rio é considerado um passo promissor. Contudo, somente a aplicação de recursos não garante o sucesso. Para garantir mudanças duradouras, a Rocinha necessita ser tratada como uma cidade, por meio de um Plano Diretor abrangente, planejamento estratégico e planos específicos por setor. Além disso, é fundamental estabelecer uma estrutura institucional permanente para coordenar ações, garantir continuidade e promover uma gestão integrada.

Devido à sua topografia complexa e dimensões urbanísticas, a participação da comunidade local e de seus vizinhos é indispensável para que as intervenções atendam às reais necessidades da população. A elaboração de um plano diretor, que teve início há duas décadas por meio de concurso público, ainda aguarda sua efetivação, embora constitua uma referência importante para ações futuras. A desejada articulação entre recursos atuais e esse projeto paralelo pode possibilitar avanços significativos.

Reconhecemos que a redução das carências estruturais revela potencial cultural e econômico latente na população de comunidades como a Rocinha. Para que esse potencial se manifeste de forma plena, é fundamental que temas relacionados às cidades e às áreas populares integrem a pauta das próximas eleições. Um projeto consistente de urbanização, que promova cidadania e direitos garantidos pela Constituição, pode impulsionar o Brasil a um desenvolvimento mais justo e sustentável.


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