O uso do ouro na medicina, conhecido como crisoterapia, foi uma prática amplamente empregada na reumatologia clássica com resultados considerados eficazes na redução de inflamações articulares. Essa abordagem, que utilizava metais preciosos no tratamento de doenças inflamatórias, permaneceu em uso por cerca de um século, apesar de sua origem histórica ser antiga.
A atuação do ouro no combate às doenças autoimunes está relacionada à sua capacidade de interferir na atividade de células de defesa chamadas macrófagos. Essa interferência impede a liberação de substâncias que podem destruir a cartilagem, contribuindo para diminuir o inchaço e a dor em pacientes com condições crônicas. Diferentemente dos analgésicos convencionais, os sais de ouro funcionam como modificadores da doença, atuando na tentativa de interromper a progressão de deformidades nas articulações. Como o organismo humano absorve e elimina o metal lentamente, o efeito benéfico costuma ocorrer após meses de uso sob supervisão médica, sendo uma estratégia terapêutica mais prolongada.
A história da crisoterapia remonta ao início do século XX na Europa, apoiada por observações clínicas em pacientes com tuberculose. Ao longo do tempo, a aplicação evoluiu de soluções injetáveis complexas para formas de administração oral mais acessíveis e práticas, como o medicamento Auranofin. Entre os principais marcos dessa trajetória, destaca-se a descoberta das propriedades bacteriostáticas do ouro na Alemanha, a implementação pioneira do médico Jacques Forestier no tratamento de artrite reumatoide e a inclusão do método nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde na metade do século passado. No entanto, a introdução de terapias biológicas mais modernas e com menor risco de rejeição levou à substituição gradual da crisoterapia em muitas aplicações clínicas.
Apesar de sua eficácia, o uso do ouro apresenta riscos associados ao acúmulo de metais pesados no organismo, podendo causar efeitos adversos graves, especialmente nos rins e na pele. Como resultado, a prática tem sido progressivamente descontinuada tanto em Niterói quanto mundialmente, devido à necessidade de monitoramento contínuo por exames laboratoriais.
Existem diferentes formas de aplicação do ouro no tratamento, incluindo a injeção intramuscular de compostos como o tiomalato de sódio, que pode provocar reações dermatológicas e danos renais, e a administração oral do Auranofin, relacionada a problemas gastrointestinais frequentes. Pesquisas atuais focam no uso de nanopartículas de ouro, como o ouro coloidal, buscando reduzir efeitos tóxicos por meio de estudos em fase clínica.
O mecanismo de ação da crisoterapia baseava-se na modulação da resposta do sistema imunológico, principalmente na inibição da atividade fagocitária dos macrófagos e na diminuição da liberação de enzimas lisossomais. Com o avanço das terapias biológicas e inibidores de JAK, essas soluções à base de ouro perderam espaço, devido ao estreito índice terapêutico e à necessidade de monitoramento intensivo.
Na medicina contemporânea, a crisoterapia é considerada uma opção de último recurso, indicada apenas para pacientes que não apresentam resposta satisfatória às terapias biológicas. Recentemente, o interesse pelo ouro ressurgiu no contexto da nanotecnologia, especialmente na busca por veículos que possam transportar quimioterápicos de forma mais precisa e menos invasiva. Essas pesquisas visam explorar a estabilidade química do metal para aprimorar tratamentos voltados a tumores malignos, além de abrir possibilidades futuras na imagem diagnóstica e na terapia gênica.
A evolução da reumatologia reflete uma mudança de paradigma, passando de tratamentos com metais pesados para o uso de imunobiológicos, que oferecem maior eficiência e segurança. No sistema público de saúde, esses avanços têm permitido melhorar a qualidade de vida de muitos brasileiros, consolidando o papel histórico do ouro na medicina, ao mesmo tempo em que impulsionam inovações tecnológicas que prometem transformar ainda mais o tratamento de doenças inflamatórias no futuro.
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