A China avança na implementação de um reator nuclear de alta tecnologia na cidade de Huizhou, na província de Cantão, com a construção do primeiro modelo comercial baseado em Sistema Acionado por Acelerador (ADS). Essa inovação promete uma eficiência 100 vezes superior aos reatores tradicionais, ao empregar resíduos radioativos como fonte de energia e promover uma significativa redução no tempo de radioatividade desses materiais.
O projeto representa uma mudança na gestão de resíduos nucleares, que atualmente enfrentam desafios relacionados ao armazenamento de materiais perigosos por períodos extensos. Com o uso do sistema ADS, espera-se transformar esses resíduos em uma fonte energética, ao mesmo tempo em que diminui drasticamente sua fase ativa, podendo reduzir a radioatividade de dezenas de milhares de anos para alguns séculos.
O funcionamento do reator é baseado em uma tecnologia que mantém a reação em estado subcrítico, dependente de uma fonte externa de nêutrons. Essa fonte é gerada por um acelerador de partículas que dispara um feixe de prótons contra uma mistura de chumbo e bismuto, produzindo uma espalação de nêutrons. Esses nêutrons fragmentam os actinídeos presentes nos resíduos, elementos altamente radioativos que podem permanecer perigosos por milhares de anos, transformando-os em isótopos de vida útil muito menor.
Além de aproveitar resíduos, o sistema permite a conversão de urânio-238—normalmente considerado resíduo—em plutônio-239, potencializando o uso do combustível nuclear. Um aspecto de segurança importante é que o reator é automaticamente desligado caso o acelerador seja interrompido, eliminando riscos de reações descontroladas.
Essa tecnologia busca solucionar um dos principais problemas da energia nuclear: a gestão dos resíduos de longo prazo. Pesquisas indicam que a vida radioativa desses materiais poderia diminuir em até mil vezes, reduzindo o período necessário para armazenamento de milhares de anos para apenas alguns séculos. Tal avanço pode transformar as estratégias de armazenamento e descarte de resíduos radioativos.
Internacionalmente, o conceito de Sistemas Acionados por Acelerador existe desde os anos 1990, mas sua implementação em larga escala ainda é rara. A China iniciou suas investigações em 2011 e, após uma década, já desenvolveu um protótipo com potencial industrial. Atualmente, planeja-se a construção de um reator de um megawatt nos próximos anos. Outros países, como Bélgica, Japão, Índia, Coreia do Sul e Rússia, também atuam no desenvolvimento de tecnologias semelhantes, com projetos em diferentes estágios de progresso.
A iniciativa chinesa integra uma estratégia nacional de diversificação energética, de modo a reduzir a dependência de combustíveis fósseis e avançar na direção da neutralidade de carbono. O esforço se soma a investimentos em diversas alternativas energéticas, incluindo fontes de energia nuclear de fissão e reatores de sais fundidos baseados em tório.
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