Na próxima semana, uma pesquisadora brasileira apresentará em Viena, na Áustria, um estudo sobre a memória e as práticas religiosas de uma comunidade afro-brasileira no Rio de Janeiro. O evento faz parte da conferência internacional dedicada à relação entre arte e espiritualidade na cultura da diáspora negra, realizada de 22 a 24 de abril de 2026 no Weltmuseum Wien.
O trabalho, intitulado “Imperiosa Serrinha: uma etnografia sobre memória e ancestralidade no ofício de Tia Ira Rezadeira”, apresenta a trajetória de Iraci Cardoso dos Santos Lino, conhecida como Tia Ira Rezadeira, que atualmente tem 89 anos. Ela é considerada uma figura central na vida cultural e espiritual do bairro da Serrinha, em Madureira, na Zona Norte do Rio. Sua atuação abrange saberes tradicionais ligados à rezadeira, parteira e praticante de religiões de matriz africana.
A pesquisa destaca o legado da avó de Tia Ira, Maria Joana Monteiro, conhecida como Vovó Maria Joana Rezadeira. Origem do interior de Valença, no Vale do Café do Rio de Janeiro, ela chegou à Serrinha no início do século XX. Participante ativa na comunidade, ela foi líder de Umbanda, rezadeira, parteira, jongueira e uma das fundadoras da escola de samba Império Serrano. Além disso, foi mãe espiritual da cantora Clara Nunes e uma figura de destaque na história local.
O estudo fundamenta-se em trabalho etnográfico no território, incluindo observação de rituais, festas e transmissão de conhecimentos tradicionais do bairro. Entre as atividades acompanhadas estão cerimônias dedicadas aos pretos-velhos e o rito anual do Amalá de Xangô, realizado na Pedreira de Xangô, no topo do morro.
A participação na conferência em Viena busca promover o debate sobre a relevância de práticas culturais e espirituais afro-brasileiras na construção da memória coletiva e da identidade comunitária, especialmente no contexto do subúrbio carioca. Segundo a pesquisadora, Tia Ira é uma guardiã da memória que representa práticas de resistência política e cultural, combatendo processos históricos de apagamento e racismo religiosos. Ela destaca que esses saberes ancestrais, muitas vezes invisibilizados nos registros oficiais, permanecem vivos nas festas, rituais e rezas das comunidades negras.
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