junho 17, 2026
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17/06/2026

Estudo revela presença de antidepressivo em cérebro de tubarões-martelo no Rio de Janeiro

Um estudo preliminar, ainda não publicado oficialmente, detectou a presença da sertralina no tecido cerebral de tubarões-martelo na costa do Rio de Janeiro. O achado foi realizado pelo Projeto EcoShark, coordenado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e revela a possibilidade de contaminantes emergentes, como medicamentos, atingirem espécies de animais marinhos ameaçadas de extinção.

A pesquisa foi conduzida por uma parceria entre cientistas e pescadores locais, que capturaram esses tubarões acidentalmente em redes na região de Recreio, Barra da Tijuca e Copacabana. Tais espécies, predadoras de topo, acumulam substâncias químicas presentes na cadeia alimentar, incluindo resíduos de medicamentos humanos que chegam ao ambiente aquático por meio do descarte de esgoto não tratado adequadamente.

A sertralina é um antidepressivo amplamente utilizado no Brasil, sendo o medicamento mais prescrito do país. Análises nacionais indicam um aumento no consumo de medicamentos para saúde mental entre 2022 e 2024, sendo que, em 2025, as vendas cresceram 11% em relação ao ano anterior.

Resíduos de fármacos dessa classe chegam às águas após passagem pelo organismo humano e descarte por meio do sistema de esgoto. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento revelam que aproximadamente 53% do esgoto produzido no estado do Rio de Janeiro não passa por tratamento completo, sendo lançado em praias e zonas costeiras via emissários submarinos, que não removem compostos farmacêuticos.

A presença de tais resíduos em animais marinhos é preocupante, pois eles se acumulam especialmente em tecidos lipídicos e no sistema nervoso. A detecção da sertralina no cérebro de tubarões sugere uma bioacumulação que, embora ainda não tenha sido associada a mudanças comportamentais, suscita questionamentos sobre os efeitos dessa exposição na saúde e no comportamento desses predadores.

Casos similares foram encontrados em estudos feitos em áreas distante do Caribe, onde tubarões apresentaram evidências de presença de drogas como cocaína, cafeína e analgésicos na corrente sanguínea, além de alterações fisiológicas. Esses achados reforçam a preocupação de que a poluição química nas zonas costeiras possa afetar a integridade de espécies vulneráveis.

Embora a ação da sertralina sobre o sistema serotonérgico de animais seja comparável à sua ação em humanos, ainda não se sabe quais impactos essas moléculas podem provocar em tubarões, cuja neuroquímica difere da de peixes ósseos e guarda semelhanças com mamíferos.

O Brasil apresenta uma taxa elevada de incidentes fatais envolvendo tubarões, com índice de mortalidade de 30% em 2021, bastante superior ao registrado em países como os Estados Unidos e Austrália. Apesar de não se relacionar diretamente ao uso de medicamentos, essa estatística reforça a preocupação com o impacto de fatores ambientais na segurança dessas espécies.

A descoberta da sertralina no tecido cerebral dos tubarões llama atenção para três crises interligadas. A primeira refere-se ao crescimento do consumo de antidepressivos, o que aumenta a quantidade de resíduos potencialmente contaminantes liberados na água. A segunda diz respeito à insuficiência nos sistemas de saneamento, que não conseguem remover esses compostos de forma eficiente. A terceira envolve a conservação, já que a espécie de tubarão-martelo, por seu papel ecológico, é criticamente ameaçada e pode sofrer danos adicionais por essa exposição química.

Para mitigar os riscos, recomenda-se implementar o monitoramento sistemático de fármacos na vida marinha e modernizar as estações de tratamento de esgoto. Além disso, é fundamental ampliar o financiamento de pesquisas em ecotoxicologia marinha para entender melhor os efeitos dessas substâncias em espécies vulneráveis ao longo de uma extensa costa que abriga uma biodiversidade significativa.


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