Durante cerca de dois séculos, o centro do Rio de Janeiro foi palco de uma das maiores celebrações populares de sua história: a Festa de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. Organizada pela Irmandade responsável pelo culto à padroeira dos comerciantes, a festividade transformava anualmente as ruas do bairro em um espetáculo de fé, cultura e convivência.
A tradição, que ocorreu ininterruptamente de 1757 a 1957, reunia comerciantes, famílias e visitantes na Rua do Ouvidor, no Arco do Teles e na Travessa do Comércio. Essas áreas eram enfeitadas com arcos, bandeiras, flores, guirlandas e símbolos religiosos, criando uma espécie de cenário dedicado à devoção mariana e à atividade comercial. As festividades começavam oficialmente em 8 de setembro, data que permanece reconhecida como o Dia da Padroeira dos Comerciantes do Rio, marcando a celebração com missa solemnemente realizada na Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na mesma rua.
Após a missa, as ruas se enchiam de música, apresentações culturais e atividades recreativas, atraindo um grande público. Entre os destaques, estava o coreto suspenso na Travessa do Comércio, uma estrutura inovadora para a época, colocada sobre pilares para permitir a passagem de pedestres enquanto os artistas se apresentavam acima. Essa estrutura ficava na área atualmente ocupada por estabelecimentos comerciais, como o Bar de Rock Hops e uma concessionária de água.
Durante os festejos, multidões apreciavam concertos, declamações e atividades variadas, além de barracas que comercializavam alimentos, bebidas, souvenirs e itens religiosos. Essa combinação de celebração religiosa, comércio e lazer evidenciava a forte ligação entre fé e atividade econômica na formação da cidade.
No encerramento dos eventos, eram realizadas iluminações especiais e queimas de fogos que atraíam os moradores ao centro, marcando o fim da festividade. Com o tempo, o desaparecimento da festa, após sua última edição em 1957, acompanhou o processo de transformação urbana e econômica do centro do Rio, levando ao esquecimento de sua importância histórica.
Recentemente, imagens restauradas e colorizadas com recursos de inteligência artificial ajudaram a resgatar essa memória. Elas revelam um centro urbano vibrante, onde fé, cultura, comércio e lazer coabitavam de modo natural. A retomada desse capítulo da história carioca provoca uma reflexão sobre a possibilidade de revitalizar tradições semelhantes, fortalecendo a identidade e o patrimônio cultural da cidade.
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