junho 20, 2026
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20/06/2026

Inscrição em cuneiforme no Theatro Municipal do Rio é decifrada após 117 anos

Uma inscrição na parede do Salão Assírio, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, foi decifrada após 117 anos, revelando uma mensagem em cuneiforme persa que homenageia o rei aquemênida Artaxerxes. A descoberta ocorreu por dois estudiosos da UFRJ e da UERJ, que identificaram o texto como uma saudação ao monarca, dizendo: “Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario”. A inscrição original, agora traduzida, fica situada no painel central do espaço decorado.

O Salão Assírio foi inaugurado em 1909, junto com o teatro, e conta com revestimentos de cerâmica esmaltada e mosaicos. Ao longo de sua história, desempenhou diversas funções, incluindo restaurante e espaço de eventos, além de atualmente receber visitas guiadas por seu acervo histórico. A nave decorada é marcada por elementos inspirados na arte persa antiga, com conexão às coleções do Museu do Louvre, datadas do período da Exposição Universal de 1889.

A descoberta teve início em uma visita ao local, em janeiro de 2025, quando o professor Alex Mazzanti Júnior, especializado em estudos clássicos, percebeu que o texto poderia ter origem na antiga Pérsia. Em seguida, ele compartilhou as imagens com o professor Matheus Treuk, especialista em arqueologia da mesma área de estudo, formando uma equipe de pesquisa. Com o apoio da museóloga Raquel Villagrán Seoane, responsável pela documentação do teatro, os pesquisadores aprofundaram suas análises utilizando registros históricos e imagens em alta resolução.

A decoração do espaço foi produzida pela empresa francesa La Grande Tuilerie d’Ivry, fundada por Émile Muller em Paris, com trabalhos reconhecidos na construção de elementos cerâmicos para a Torre Eiffel. Entre 1905 e 1909, sob a direção de Louis Muller, a mesma firma realizou os revestimentos do salão, cuja estética aborda referências de sítios arqueológicos iranianos, como Persépolis, Susa e Naqsh-i Rostam.

A iconografia presente na inscrição associa-se ao conceito de “Apadana”, termo persa antigo que designa salões de recepção ou palácios reais da antiga Pérsia, e retrata uma cena com um altar de fogo e uma figura do rei em gestos de oferenda. A presença do rei Artaxerxes, que viveu entre 497 a.C. e 427 a.C., reforça a inspiração na história persa antiga. A discussão sobre a origem do espaço, inicialmente categorizado como “assírio”, também passa a questionar sua identificação com uma referência mais precisa às coleções persas antigas presentes em Paris.

Segundo os pesquisadores, a decoração do Salão mistura elementos de diversas fontes arqueológicas, criando uma representação híbrida que reflete uma leitura própria da história da antiguidade persa. A obra traz uma interpretação inovadora no contexto do orientalismo brasileiro, ao adaptar modelos antigos, substituindo personagens assírios por figuras persas, com objetos que remetem a rituais e tradições distintas.

Publicações acadêmicas destacam a relevância do espaço, considerado uma peça única na história do orientalismo no Brasil e um exemplo de erudição na representação da Antiguidade. As referências culturais presentes no salão refletem o impacto do fascínio orientalista do século XIX, sobretudo em relação à circulação de artefatos e modelos do Oriente Médio em exposições europeias. Por ora, a equipe de pesquisa continua analisando as implicações históricas e culturais da descoberta, aguardando possíveis desdobramentos acadêmicos futuros.


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