julho 1, 2026
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01/07/2026

Tião, o chimpanzé que recebeu 400 mil votos em 1988 na eleição do Rio

Em 1988, o Rio de Janeiro presenciou um episódio que entrou para a história política do Brasil, muito antes da era dos memes e campanhas virtuais satíricas. Naquele ano, um chimpanzé chamado Macaco Tião, popular personagem do antigo Jardim Zoológico da cidade, recebeu aproximadamente 400 mil votos em uma eleição municipal não oficial, o que o colocaria na terceira colocação, caso fossem considerados válidos. Embora sua candidatura não tenha sido formalizada, o episódio simbolizou um expressivo ato de protesto e criatividade popular.

Tião, nascido em cativeiro em 1963, ganhou notoriedade por sua inteligência, carisma e comportamento amigável. Durante sua vida, ele encantou visitantes ao demonstrar interações afetuosas com seus cuidadores, e se tornou uma das principais atrações do Zoológico do Rio. No entanto, seu temperamento explosivo também chamou atenção, especialmente na década de 1980, depois de ser transferido para uma nova jaula, quando passou a reagir a visitantes com arremessos de lama, restos de comida e fezes, principalmente a autoridades e políticos que visitavam o local. Uma das ações mais famosas ocorreu durante a inauguração de sua nova cela, quando atingiu o então prefeito Júlio Coutinho, que posteriormente brincou, sugerindo que Tião pode não ter gostado de sua nova moradia. Outros políticos também foram atingidos em episódios similares.

A candidatura de Tião foi promovida por um movimento satírico liderado pela revista humorística Casseta Popular, com o apoio do então deputado Fernando Gabeira. A iniciativa tinha como propósito denunciar a insatisfação com a política da época e ganhou destaque ao utilizar instrumentos tradicionais de campanha, como santinhos, camisetas, broches e até evento oficial no Circo Voador. Os slogans usados na campanha, como “Tudo pela evolução. Vote Macaco Tião” e “Tião, Tião, o candidato do povão”, reforçaram a pegada popular e de protesto da ação.

A mobilização popular foi expressiva, com cerca de 400 mil votos escritos nas cédulas de papel. Caso fossem considerados válidos, Tião teria ficado à frente de diversos candidatos tradicionais, mas a votação foi posteriormente anulada pela Justiça Eleitoral por não haver registro oficial de sua candidatura. Mesmo assim, o episódio marcou uma das manifestações mais criativas na história eleitoral do Brasil e garantiu a Macaco Tião seu lugar no Guinness World Records como o chimpanzé mais votado do mundo.

A repercussão da campanha permitiu que Tião se transformasse em símbolo do voto de protesto e um personagem folclórico do Rio de Janeiro. Seu legado ultrapassa a esfera eleitoral, tendo sido motivo de destaque na imprensa internacional e de homenagem em produções audiovisuais. Quando faleceu em 1996, aos 33 anos, vítima de diabetes, sua morte mobilizou a cidade e foi destaque na mídia global, incluindo a capa do jornal francês Le Monde. Sua ossada permanece preservada no Centro de Primatologia do Rio para fins científicos.

Mais de duas décadas após sua morte, o nome de Tião ainda faz parte do cenário cultural local. No Bioparque do Rio, uma homenagem permanente inclui uma alameda que leva seu nome, uma estátua dourada na entrada e o espaço recreativo Boteco do Tião, inspirado na personalidade popular do animal. Desde 2017, um documentário conta os bastidores da campanha de 1988, detalhando a trajetória que o transformou em um ícone do humor político brasileiro. Ainda hoje, Tião é lembrado como uma figura emblemática da história do Rio de Janeiro e das manifestações populares de protesto.


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