Nos séculos XVIII e XIX, a Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro operava uma loteria oficial que mobilizava o cotidiano da cidade. Conhecida como “Roda da Fortuna”, essa iniciativa não só arrecadava fundos essenciais para a instituição, mas também envolvia a população em um jogo acessível a diferentes classes sociais, permitindo a compra de frações de bilhetes.
Fundada em 1582, a Santa Casa desempenhava um papel fundamental na assistência social, oferecendo atendimentos médicos, acolhimento de crianças, socorro aos mais necessitados e realização de sepultamentos gratuitos. Para garantir recursos, a irmandade explorava uma série de atividades, incluindo as loterias autorizadas pelo governo. Documentos históricos, como decretos de 1837 e 1839, confirmam que a instituição já operava múltiplas concessões de sorteios há bastante tempo, destacando a importância dessas operações na sustentação de suas ações filantrópicas.
Os anúncios das loterias, frequentes na imprensa da época, revelam a ampla participação popular. Era comum a venda de bilhetes inteiros ou em frações, atendendo a diferentes possibilidades de participação financeira. Os sorteios eram realizados na própria sede da Santa Casa, localizada no centro do Rio de Janeiro, reforçando a integração entre a instituição e os certames.
Apesar da mudança de regime político com a República, a continuidade das loterias ocorreu sem interrupções, passando a ser regulada por novos decretos e mantendo sua relevância econômica para a mantença das obras sociais. Em 1897, registros indicam que a entidade recebia valores provenientes desses sorteios, que contribuíam significativamente para sua operação.
Atualmente, a Santa Casa mantém uma extensa rede de atendimento à população, incluindo hospitais, instituições para idosos e programas de assistência social. Apesar de a “Roda da Fortuna” ter desaparecido, sua história demonstra a forte conexão entre a tradição das loterias e o financiamento de iniciativas assistenciais. Em Portugal, a prática permanece viva até hoje, evidenciando que de alguma forma, a roda continua girando, perpetuando um modelo antigo que conectava esperança de sorte à solidariedade social.
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