No lado oposto à entrada principal do Hotel Copacabana Palace, uma porta discreta guarda um segredo que remete a uma fase importante de sua história. As iniciais “CC” na fachada indicam o antigo Cassino Copacabana, funcionamento que ocorreu entre 1933 e 1946, durante o período em que os jogos de azar eram permitidos no Brasil.
A estrutura que abrigava o cassino foi construída nos fundos do complexo hoteleiro, acessível pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Essa edificação, levantada após a remoção de um morro local na década de 1940, foi integrada ao hotel, mas mantinha separação física do prédio principal voltado para a orla de Copacabana. Originalmente, ela possuía uma entrada para o cassino e uma porta destinada à administração. Com o passar do tempo, os salões de jogos ganharam outros usos e atualmente fazem parte do espaço cultural do hotel, onde funciona o Teatro Copacabana Palace.
Durante sua operação, o cassino se consolidou como um dos maiores e mais sofisticados do Brasil. Dispunha de três grandes salões de jogatina e funcionava seis vezes por semana. O ambiente era marcado por requinte e, em algumas noites, distribuía garrafas de champanhe aos frequentadores. Os trajes completos eram obrigatórios para participar das apostas. Sua presença na cidade rivalizava com outros estabelecimentos de destaque, como o Cassino Atlântico, na zona sul de Copacabana, e os cassinos da Urca e do Hotel Quitandinha, em Petrópolis.
Estima-se que, ao longo de seus 14 anos de atividade, o Cassino Copacabana movimentou cerca de US$ 1 bilhão em apostas, segundo registros não oficiais mencionados em uma publicação de 2003 que comemorou os 80 anos do hotel. O ambiente de luxo também atraiu artistas, incluindo nomes que mais tarde se tornaram figuras marcantes da música brasileira, como Nelson Gonçalves e Ciro Monteiro, que atuavam como crooners e se apresentavam em conjunto com coristas. As fichas, muitas delas preservadas, representam essa época, incluindo exemplares com a inscrição “Cassino 10 mil réis”, refletindo o valor das apostas na época.
Entretanto, episódios considerados inusitados também fazem parte da história do cassino. Benjamin Vargas, irmão de Getúlio Vargas, era conhecido por circular armado no local. Em uma ocasião, disparou contra uma mulher durante uma discussão. Em outra, teria apostado tudo na roleta, deixando seu revólver sobre a mesa. O medo causado pela arma levou um funcionário a anunciar o seu palpite como vencedor, uma história que ganhou notoriedade e inspiração para um musical sobre o hotel. Além disso, a última partida de roleta antes da proibição do jogo, na véspera da entrada em vigor da lei, teria ocorrido nesse espaço.
A proibição dos jogos de azar, decretada em 1946 pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra, marcou o fim do cassino e de uma fase que tinha seu papel na vida social de Rio de Janeiro e demais regiões do país. Assim, aproximadamente 40 mil pessoas, entre profissionais de entretenimento, croupiers e outros trabalhadores, perderam seus empregos. A decisão foi influenciada por fatores morais e religiosos, incluindo a forte oposição da primeira-dama, Dona Santinha.
Antes mesmo de sua legalização em 1933, o relacionamento do Hotel Copacabana Palace com os jogos de azar já havia sido considerado. Quando o empreendimento foi inaugurado na década de 1920, havia planos para a instalação de um cassino, apoiados por contatos políticos da época. Entretanto, problemas relacionados à importação de materiais e à necessidade de reforços estruturais adiariam a concretização do projeto. Com o tempo, a sala de jogos foi transformada em espaço teatral, começando em 1949, e posteriormente integrada às áreas culturais do complexo.
Atualmente, o espaço que antes abrigava o cassino funciona como teatro, mantendo a memória daquele período de ouro. A entrada pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana permanece como um lembrete silencioso daquele tempo de glamour, jogos e artistas, mostrando como o passado do local permanece vivo na história do bairro.
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