O consumo de café no Brasil mantém uma tendência de praticidade, ao mesmo tempo em que cresce o interesse por aprofundar o conhecimento sobre a bebida. Enquanto o café tradicional permanece presente na rotina matinal, há uma ampliação na curiosidade por detalhes sobre a origem dos grãos, processos de torra, métodos de preparo e as características sensoriais que identificam aromas como chocolate, fruta, caramelo ou flores.
Esse movimento é refletido em conteúdos produzidos em plataformas como TikTok e Instagram, onde influenciadores apresentam receitas simples e técnicas mais sofisticadas de preparação. É comum ver vídeos de pessoas moendo grãos na hora, ajustando temperaturas ou experimentando diferentes métodos de extração, além de compartilhar experiências de cultivo e torra caseira. Para muitos entusiastas, essas publicações enriquecem o entendimento sobre a bebida, enquanto outros podem encarar essas tarefas como simples obstáculos na rotina diária.
O conceito conhecido como quarta onda do café surge justamente dessa combinação entre a busca por qualidade, o uso de tecnologia doméstica e a influência das redes sociais, ampliando o acesso a cafés de alta qualidade para um público mais amplo. Embora ainda não haja consenso entre especialistas, o termo resume uma fase de transformação na relação do consumidor com a bebida, marcada pela popularização de cafés especiais e pelo interesse crescente em preparos feitos em casa.
Estudos indicam que a força dessa tendência, já perceptível no mercado norte-americano, também começa a influenciar o Brasil. A produção de cafés gourmet e especiais cresceu significativamente, embora essa categoria ainda represente uma parcela pequena das vendas totais, segundo dados de entidades do setor. Nesse cenário, a exploração por parte do consumidor se amplia, sem que o café tradicional perca seu protagonismo.
Antes de entender o que caracteriza a quarta onda, é importante contextualizar as fases anteriores. A primeira, na década de 1900, consolidou a massificação do café, tornando-o acessível à maioria da população. A segunda, a partir da década de 1950, intensificou sua presença em cafeterias, promovendo a experiência social. A terceira, surgida no fim do século XX, trouxe a origem do grão e seus atributos sensoriais para o centro das discussões, elevando o café ao nível de produto artesanal.
A quarta onda busca democratizar o acesso a cafés de alta qualidade, levando-os a ambientes comuns de consumo, como supermercados, cápsulas de preparo rápido, clubes de assinatura e cafés de bairro. Essa expansão tem como objetivo oferecer opções que combinam praticidade, sabor e potencial de personalização, facilitando o ingresso de novos consumidores no universo do café especial.
A produção de cafés de alta qualidade para o varejo de grande escala enfrenta o desafio de equilibrar volume e padrão. Para isso, cooperativas desempenham papel importante ao organizar a produção e reduzir custos, tornando possível oferecer produtos de qualidade superior a preços acessíveis. É necessário, ainda, que os processos de cultivo, colheita, processamento, torra e armazenamento sejam bem conduzidos, para garantir a avaliação sensorial adequada.
No Brasil, as espécies mais cultivadas são o arábica e o conilon. Cada uma possui características distintas, tanto no cultivo quanto no perfil sensorial. O arábica é reconhecido por maior complexidade aromática e variedade de notas, enquanto o conilon apresenta maior teor de cafeína e costuma contribuir com maior corpo às bebidas. A qualidade do conilon, assim como a do arábica, depende de cuidados durante todo o ciclo de produção.
No que diz respeito à classificação, o termo “gourmet” refere-se a cafés que apresentam atributos sensoriais positivos, como equilíbrio entre amargor, doçura e acidez, além de notas aromáticas variadas. Essa categoria não depende exclusivamente da origem ou da espécie do grão, podendo incluir blends ou cafés produzidos com diferentes matérias-primas, desde que atendam a padrões qualitativos definidos por protocolos de avaliação sensorial.
A disseminação do consumo de café também é impulsionada pelo conteúdo nas redes sociais. Hoje, preparar uma xícara de café tornou-se uma atividade que envolve estética e técnicas, influenciando o comportamento do consumidor, especialmente das gerações mais jovens. Influenciadores também compartilham suas experiências de cultivo, processamento e torra doméstica, promovendo uma visão do café como processo completo, quase uma atividade “faça você mesmo”.
Contudo, a rotina diária limita o tempo disponível para esses processos detalhados. Como consequência, soluções práticas como cápsulas, cafés premium de preparo rápido, bebidas prontas e equipamentos simplificados ganham espaço, atendendo à demanda por qualidade aliada à conveniência. Essa adaptação se reflete na expansão de produtos que unem sabor e praticidade, buscando satisfazer consumidores que desejam experimentar novas tendências sem abrir mão da rapidez.
Outra porta de entrada para o universo do café diferenciado são os produtos aromatizados, que oferecem sabores como chocolate, avelã, baunilha ou menta, muitas vezes a preços acessíveis. Embora nem todos esses cafés sejam considerados especiais, eles atendem à preferência por experiências sensoriais diferentes, muitas vezes sem necessidade de conhecimentos profundos sobre o produto.
Na prática, há opções variadas no mercado para quem quer começar a experimentar cafés de alta qualidade ou aromatizados, com preços que variam desde itens mais acessíveis até produtos premium. Essa diversidade reflete a coexistência de diferentes perfis de consumo, sem que uma preferência exclua a outra.
Embora o mercado se diversifique, o café tradicional ainda domina as vendas de produtos certificados, com uma maior proporção de consumidores que preferem o padrão mais comum de consumo. Assim, é provável que diferentes formas de consumo continuem coexistindo, atendendo a uma variedade de preferências e estilos de vida.
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