Recentemente, vídeos que oferecem a ideia de eliminar todos os dentes, inclusive os saudáveis ou passíveis de recuperação, têm circulado nas redes sociais, promovendo a ideia de nunca mais precisar visitar o dentista. Essa abordagem, embora atraente para quem busca evitar tratamentos ou reduzir custos, ignora as implicações de uma retirada irreversível dos dentes naturais.
A especialista em periodontia e implantodontia Cristina Miura esclarece que a extração indiscriminada pode resultar na perda do volume ósseo que sustenta os dentes, dificultando futuras instalações de próteses e implantes, além de alterar a estrutura facial. Ela enfatiza a importância de avaliar cada caso individualmente, considerando as opções de tratamento disponíveis antes de optar pela remoção total dos dentes.
Na maior parte das situações, procedimentos como restaurações, tratamentos de canal, coroas e intervenções para controle de infecções contribuem para manter os dentes naturais, sendo a extração recomendada apenas quando esses tratamentos não são viáveis ou representam risco à saúde bucal. A decisão de remover um dente deve ser tomada com cuidado, pois sua perda pode ocasionar mudanças irreversíveis na anatomia facial e na estabilidade da boca.
A dor de dente é uma das causas mais frequentes que leva pacientes à busca por soluções rápidas, muitas vezes levando ao uso de receitas caseiras ou ao adiamento do atendimento odontológico. Essas práticas podem agravar o problema, provocando danos à polpa do dente, o que pode evoluir para a necessidade de tratamentos mais complexos, como o canal, e até mesmo a extração, que, apesar de parecer uma solução mais acessível inicialmente, pode resultar em custos mais altos no futuro devido às alterações na mordida e ao deslocamento dos dentes adjacentes.
Segundo Cristina, a perda de um dente influencia na distribuição das forças mastigatórias, podendo causar movimentos nos dentes vizinhos e afetar o alinhamento, além de comprometer a estética facial. Assim, é fundamental procurar um profissional ao primeiro sinal de desconforto ou sensibilidade, para que uma avaliação precoce possa orientar a preservação do dente.
A remoção de dentes também provoca mudanças no osso alveolar, que recebe estímulos durante a mastigação. A ausência de estímulos promove um processo de reabsorção óssea, que tende a ser mais intenso no primeiro ano após a extração e pode continuar ao longo da vida. Essa perda óssea, por sua vez, dificulta a adaptação de próteses, limita a colocação de implantes e modifica aspectos da face, como a projeção do queixo e a sustentação dos lábios. Em casos de múltiplas extrações, esses efeitos podem alterar a aparência facial, reduzindo a distância entre o nariz e o queixo e causando afinamento do lábio.
Quanto às próteses removíveis, elas não reproduzem todas as funções originais dos dentes naturais, especialmente na percepção de força durante a mastigação, devido à ausência do ligamento periodontal. A adaptação a mudanças no volume ósseo costuma exigir ajustes periódicos, reembasamentos ou substituições, indicando que a perda dos dentes não encerra a necessidade de cuidados constantes com a saúde bucal.
Embora os implantes dentários sejam uma alternativa para a substituição de dentes perdidos, seu sucesso também depende de uma higiene rigorosa e acompanhamento profissional. A presença de doenças periodontais anteriores, como a periodontite, aumenta o risco de complicações, incluindo a peri-implantite, uma inflamação que pode destruir o osso ao redor do implante e comprometer sua estabilidade.
A decisão de realizar uma extração deve ser baseada em uma análise cuidadosa do quadro clínico, levando em consideração fatores como extensão da lesão, possibilidades de recuperação e riscos associados. Quando possível, procedimentos conservadores, como restaurações ou tratamentos de canal, podem preservar os dentes, evitando as consequências de uma remoção definitiva.
A orientação profissional é essencial para que o paciente compreenda as implicações de cada escolha e possa tomar decisões informadas. Cristina destaca que o papel do odontólogo é explicar as alternativas, suas limitações e os cuidados necessários ao longo do tempo, em vez de atender apenas ao desejo de extração total, que pode parecer uma solução fácil, mas não é isenta de consequências. Assim, antes de decidir pela extração de dentes ainda tratáveis, procura-se aconselhamento especializado para preservar a saúde bucal e evitar intervenções mais complexas no futuro.
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