março 16, 2026
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16/03/2026

Crise climática afeta economia urbana e expõe desigualdades, aponta debate no Museu do Amanhã

Na manhã desta sexta-feira, ocorreu no Museu do Amanhã, no Centro do Rio, um debate que abordou os impactos das mudanças climáticas na economia urbana. O encontro destacou como eventos extremos, como enchentes, secas e ondas de calor, têm afetado infraestrutura, mobilidade e a saúde pública nas cidades, aprofundando desigualdades sociais e elevando os custos públicos.

Promovido pelo HUB de Economia e Clima do Instituto Clima e Sociedade (iCS), em parceria com a Escola de Ciências do Museu do Amanhã, o painel contou com as participações do economista Rogério Studart, conselheiro do HUB, e de Luize Sampaio, coordenadora de Informação da Casa Fluminense. A mediação foi feita pelo jornalista Emanuel Alencar.

Alencar destacou a disparidade entre planos que tratam das questões climáticas e os recursos destinados a sua implementação. Apesar de aproximadamente 70% dos municípios fluminenses possuírem estratégias relacionadas ao tema, menos de 15% dispõem de orçamento específico para ações de adaptação, dificultando a execução de medidas efetivas.

Rogério Studart afirmou que a atual frequência de eventos climáticos extremos demonstra a entrada definitiva da crise na rotina das cidades. Segundo ele, trata-se de um equívoco considerar o clima apenas como uma externalidade econômica. Para o especialista, a forma como a produção e o uso dos recursos naturais são organizados influencia diretamente na ocorrência de desastres e, ao ignorar essa relação, há uma negligência social e orçamentária que se manifesta futuramente em perdas de infraestrutura e maior custo de vida.

O consultor destacou a necessidade de que as decisões econômicas incorporem o risco climático de maneira mais incisiva. Segundo ele, adiar esse debate aumenta a vulnerabilidade financeira e social das cidades, pois a ausência de planejamento gera gastos emergenciais e perdas irreversíveis, além de afetar as próximas gerações.

Luize Sampaio reforçou o papel da degradação ambiental e da precariedade do saneamento na intensidade dos efeitos climáticos na Região Metropolitana do Rio. Ela evidenciou que a baixa qualidade da água de rios e lagos eleva a incidência de doenças e reflete desigualdades históricas. Sampaio apontou que comunidades vulneráveis, como as da Baixada Fluminense, já enfrentam dificuldades como perdas materiais frequentes, agravadas pelas oscilações climáticas.

A especialista também relacionou indicadores sociais aos ambientais, demonstrando que a crise impacta de forma mais severa os territórios mais vulneráveis. Como exemplo, citou que 98% das pessoas internadas por doenças de veiculação hídrica em Belford Roxo são negras, além de ressaltar que aproximadamente 70% dos alimentos consumidos na capital vêm da região, cuja fragilidade estrutural afeta toda a dinâmica urbana.

Durante a discussão, foram mencionados projetos de recuperação ambiental na Baía de Guanabara, considerados modelos de melhoria para a gestão de recursos hídricos nas áreas ao redor, particularmente em municípios como Magé e São Gonçalo, promovendo benefícios ambientais e sociais.

A discussão também abordou o papel da COP30, com Rogério Studart destacando que o evento revelou o atraso de muitas cidades, especialmente as mais pobres, na preparação frente a eventos climáticos extremos. Segundo ele, o reconhecimento dessa vulnerabilidade aumenta a cobrança por ações concretas.

Ao término, foi anunciado o lançamento do edital “Clima na Economia”, promovido pelo iCS, que prevê o investimento de R$ 2,5 milhões em pesquisas voltadas à integração da questão climática às estratégias econômicas. O financiamento oferecido pode chegar a R$ 500 mil por projeto, contemplando áreas como adaptação às mudanças, macroeconomia, microeconomia e finanças públicas, com o objetivo de promover estudos voltados a políticas públicas, investimentos e estratégias de desenvolvimento.


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