Acesso limitado à internet e baixa qualidade de conexão permanecem como obstáculos significativos para comunidades periféricas, indígenas e quilombolas no Brasil, influenciando negativamente o consumo de notícias e contribuindo para a disseminação de informações falsas. Essa é a principal constatação de pesquisa divulgada recentemente por uma coalizão de organizações que representam mídias dessas regiões.
O estudo ouviu cerca de 1,5 mil pessoas em três cidades — Santarém (PA), Recife (PE) e São Paulo (SP) — e revelou que aproximadamente 25% dos entrevistados veem a conectividade restrita como um dos maiores desafios ao obter informações. Além disso, 17% dos participantes apresentaram dificuldades para distinguir conteúdos falsos, enquanto 16% disseram não dispor de tempo suficiente para verificar a veracidade das informações que acessam.
O levantamento também apontou que rotinas intensas, especialmente entre mulheres, reduzem o tempo disponível para reflexão sobre as notícias recebidas em aplicativos e redes sociais. Segundo a pesquisa, essa sobrecarga limita a capacidade de discernimento e reflexão frente às informações.
A coalizão destaca a necessidade de reformular a relação do jornalismo com as populações periféricas, defendendo uma abordagem mais participativa. Para Thais Siqueira, coordenadora do estudo, o desafio vai além de ampliar a quantidade de informações. É essencial transformar o modo de produzir notícias, ouvindo ativamente essas comunidades e construindo conteúdo colaborativamente, em vez de apenas transmitir de fora para dentro.
Os dados indicam que a maioria busca notícias para entender o que acontece na própria vizinhança (17%). Outros consumidores utilizam as informações para ações cotidianas (14%), compartilhamento social (12%) ou para manter conversas (11%). Os aplicativos de mensagens, especialmente WhatsApp, e as redes sociais, como Instagram, lideram o acesso às notícias.
Existem diferenças de comportamento entre as regiões estudadas. Em Recife e São Paulo, há maior variedade na preferência por plataformas digitais, enquanto em Santarém o WhatsApp é a principal fonte de informação, seguido pela televisão e o rádio. Esses canais tradicionais continuam exercendo papel relevante em locais onde a conexão digital é mais incipiente.
O celular é considerado o dispositivo principal de acesso às notícias, seguido por televisão, computador e rádio. Apesar do crescimento das plataformas digitais, meios tradicionais ainda são considerados as fontes mais confiáveis, junto de sites de notícias, professores, lideranças comunitárias e pessoas próximas. Influenciadores digitais aparecem com níveis de confiança menores, atrás até de grupos de WhatsApp.
O estudo reforça que a confiança na informação está relacionada ao contexto local e às experiências coletivas. Conteúdos produzidos dentro das comunidades, respeitando suas formas de expressão, possuem maior aceitação entre os moradores. Thais Siqueira pontua que combater a desinformação requer fortalecer canais de comunicação comunitários, e não apenas checar fatos.
A pesquisa recomenda investimentos em sistemas próprios de comunicação, além de formatos acessíveis para quem possui limitações de conectividade, como vídeos curtos e áudios de fácil compartilhamento. Ao todo, foram elaboradas 16 recomendações voltadas ao reforço do jornalismo local e à ampliação do acesso à informação.
Para realizar o estudo, a coalizão treinou profissionais de comunicação nas três cidades, envolvendo também artistas e jovens de comunidades, utilizando estratégias desenvolvidas pelo Observatório Ibira30 e pela Fundação Tide Setubal. A iniciativa reúne organizações de cinco estados brasileiros, atuantes em diferentes territórios periféricos.
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