Um estudo recente, conduzido pela ONG Sea Shepherd Brasil em parceria com universidades brasileiras, revelou a presença de níveis perigosos de metais pesados na carne de tubarão comercializada no país. A pesquisa constatou que toda a amostra analisada apresenta contaminação por metais como cádmio, mercúrio e arsênio, indicando riscos à saúde pública e questões ambientais preocupantes.
A investigação, publicada na revista Food Science and Technology, analisou 240 amostras de carne de tubarão coletadas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Os resultados evidenciaram que todos os itens continham elementos tóxicos, com 75% das amostras apresentando níveis que excedem os limites internacionais mais rigorosos. Destacam-se concentrações de alumínio, arsênio, cromo, ferro, mercúrio, níquel e zinco, sendo que o alumínio atingiu cerca de 14 vezes o parâmetro máximo permitido.
O estudo apontou ainda que 85% da carne consumida no Brasil é importada, com destaque para Taiwan, Portugal e Espanha como principais fornecedores. Entre esses países, Taiwan lidera com 39,2% das capturas, seguida por Portugal com 17,5% e o próprio Brasil, com 15%. Essas informações reforçam o papel do Brasil como um importante centro de comércio de carne de tubarão no cenário global.
Por se tratar de um predador no topo da cadeia alimentar marinha, os tubarões acumulam substâncias tóxicas ao longo da vida, processo conhecido como bioacumulação. Essa condição aumenta a influência de metais pesados na carne do animal, levando a possíveis consequências à saúde dos consumidores. O consumo frequente de produto contaminado, especialmente em ambientes como escolas, pode causar disfunções renais, fortalecer a fragilidade óssea e aumentar o risco de câncer, além de problemas neurológicos relacionados a metais como o mercúrio.
A falta de transparência na rotulagem é outro fator preocupante. Embora a carne de tubarão seja vendida genericamente como “cação”, análises genéticas mostraram que a maioria das amostras é de tubarão-azul. Essa superficialidade dificulta rastrear a origem e caracteriza o mercado brasileiro como uma espécie de “lavanderia” de tubarões, onde os consumidores geralmente não têm acesso a informações claras sobre o produto.
No âmbito das políticas públicas, observa-se uma contradição entre regulamentações. De um lado, duras medidas de controle de exportação foram adotadas, exigindo maior rastreabilidade e análise de contaminantes. Por outro, a captura do tubarão-azul ainda é permitida em águas nacionais, justificando a origem da maior parte das importações. Essa situação causa preocupação não apenas do ponto de vista da saúde, mas também em relação à conservação de espécies ameaçadas, como o tubarão-azul, classificado como “Vulnerável” pela Lista Vermelha da IUCN no Atlântico Sul.
Diante dessas evidências, especialistas defendem a necessidade de revisão das políticas e maior transparência nos processos de comercialização. A organização ressaltou que estratégias de conservação devem caminhar de mãos dadas com ações que assegurem a segurança alimentar da população, incluindo a proibição do consumo de carne de tubarão e a adoção de rotulagem clara, como medidas essenciais para preservar a saúde pública e o meio ambiente.
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