No extremo norte do estado do Rio de Janeiro, na fronteira com o Espírito Santo, as falésias de sedimentos avermelhados que desabam diretamente no mar marcam a paisagem de São Francisco de Itabapoana. Este município, que possui cerca de 62 quilômetros de litoral e mais de 20 praias, destaque por ser o único local no estado com formações de falésia em movimento ativo. A distância a partir de Niterói é de aproximadamente 320 km, percorrendo a rodovia BR-101, um trajeto que dura cerca de 4 a 4 horas e meia de carro.
As falésias desta região pertencem à Formação Barreiras, uma unidade geológica que se estende do Amapá até o Rio de Janeiro, formada há entre 5 e 2,5 milhões de anos. Sua composição inclui óxido de ferro, cujas partículas, transportadas pela chuva, cimentam os sedimentos, conferindo às paredes uma coloração que varia do vermelho intenso ao branco. Essas estruturas, que podem atingir até 10 metros de altura na Ponta do Retiro, incluem ainda um farol da Marinha do Brasil.
A singularidade das falésias de São Francisco de Itabapoana foi reconhecida por pesquisadores do Projeto Geoparque Costões e Lagunas e pelo historiador Roberto Acruche. Recentemente, a área foi incorporada ao processo de reconhecimento internacional como aspirante a Geoparque pela UNESCO, integrando um projeto que abrange 16 municípios litorâneos do estado. A candidatura foi aprovada pelo Conselho Executivo da UNESCO em março de 2024, destacando sua importância geológica, que inclui desde estromatólitos na Lagoa Salgada até as falésias de Lagoa Doce.
O município também integra a Região Turística Costa Doce, ao lado de cidades como Campos dos Goytacazes e São João da Barra, e abriga o Quilombo da Barrinha, uma das poucas comunidades de remanescentes quilombolas à beira-mar no Brasil, composta por 70 famílias e liderada exclusivamente por mulheres.
A estrutura turística local é modesta, preservando a atmosfera selvagem do litoral. As praias oferecem cenário de tranquilidade, com poucos quiosques e movimentação reduzida. Entre as principais opções estão a Praia da Lagoa Doce, com seus 4 km de areia e falésias vermelhas, e a Praia de Guriri, onde as formações rochosas emergem à medida que o litoral se estende. Outras praias notáveis incluem Guaxindiba, ideal para famílias, Santa Clara, com infraestrutura variada, e Barra do Itabapoana, localizada na foz do rio que divide o estado. Gargaú, por fim, é a mais movimentada, próxima de um antigo entreposto comercial transformado em centro cultural.
O clima na região é tropical, com temperaturas elevadas ao longo de todo o ano e chuvas concentradas entre dezembro e março, período em que as temperaturas variam de 23°C a 33°C. O outono, de abril a junho, registra queda na precipitação e oferece condições propícias para caminhadas e trilhas. O inverno, de julho a setembro, apresenta temperaturas de até 26°C, sendo considerado ideal para pescaria e fotografia, enquanto a primavera combina temperaturas amenas e maior incidência de chuvas, favorável a visitas ao Quilombo da Barrinha.
O acesso por via terrestre é feito principalmente pela BR-101, com a entrada na RJ-224 na cidade de Campos. De lá, há opções de transporte até o litoral, incluindo linhas de ônibus que conectam o Rio de Janeiro ao município. Para quem deseja chegar às falésias da Lagoa Doce, a referência é a RJ-196 até a Ponta do Retiro. A viagem completa, desde Niterói, leva cerca de 5 a 6 horas, dependendo do trânsito e conexões.
São Francisco de Itabapoana revela uma faceta pouco explorada do litoral fluminense, com suas falésias vermelhas únicas e praias quase desertas, que oferecem uma experiência de contato direto com a natureza e um cenário de milhões de anos de formação geológica. O destino apresenta, assim, uma alternativa de tranquilidade para quem busca fugir do agito das regiões mais conhecidas do litoral.
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