maio 24, 2026
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24/05/2026

Festa do Divino Espírito Santo no Rio do século XIX revela tradição popular e impacto urbano

No Rio de Janeiro, a celebração de Pentecostes, atualmente marcada por cerimônias religiosas discretas e símbolos tradicionais, foi outrora uma grandiosa manifestação popular nas ruas da cidade. No século XIX, a Festa do Divino Espírito Santo, organizada pela Irmandade de Santana, enchia de vida o espaço do Campo de Santana, trazendo folias, música, barraquinhas e homenagens públicas, consolidando-se como uma das principais festividades religiosas do período.

Antes de transformar-se na praça da República, o local tinha forte ligação com o sagrado. Desde sua fundação, em 1735, com a construção da capela dedicada a Sant’Ana, a área foi palco de manifestações religiosas e sociais. A presença de irmandades como a de São Domingos e a de Santana mostrava uma relação estreita entre confrarias devocionais e a vida comunitária, desempenhando papel importante no tecido social do Rio colonial.

A Festa do Divino, celebrada tradicionalmente no Pentecostes, era um evento emblemático, chegando a se estender por vários meses, de maio a julho. Sua estrutura incluía a colocação de um mastros com a pomba do Espírito Santo, a escolha de um “imperador”, muitas vezes uma criança, além de grupos conhecidos como folias, que percorriam a cidade arrecadando doações. Artistas internacionais, como Jean-Baptiste Debret, documentaram a vivacidade dessas celebrações, que envolviam música, teatralidade e uma forte presença popular.

Durante essas festividades, a devoção ultrapassava os limites religiosos e se integrava às próprias atividades da corte portuguesa. A coroação do “Imperador do Divino” frequentemente reunia vice-reis, com vestimentas especiais, bandeiras e uma atmosfera que remetia a uma espécie de reino simbólico, no qual o espírito de festa interferia na rotina urbana, mesclando as identidades cultural e religiosa do Rio.

Com a chegada da corte portuguesa ao Brasil, em 1808, a dinâmica dessa celebração sofreu mudanças. A área foi transferida para usos militares e administrativos, culminando na demolição das estruturas originais da Irmandade de Santana, em 1811. Embora a devoção ao Divino persistisse, ela passou a ser celebrada de forma mais provisória, sob o impacto das ações do poder público, que passou a fiscalizar e limitar as aglomerações em parte do espaço público.

Na segunda metade do século XIX, o poder municipal passou a exigir licenças para as atividades durante a evento, tentando regulamentar o que era, até então, uma manifestação espontânea. Ao mesmo tempo, o espaço do Campo de Santana foi sendo permanentemente transformado por equipamentos públicos, instituições políticas e obras de paisagismo, até a fundação da República. A igreja de Santana, demolida em 1855, foi substituída por construções que reforçaram a presença do Estado na área.

Hoje, Pentecostes no Rio de Janeiro é lembrado, sobretudo, pelas suas referências mais formais na liturgia, mas sua história revela uma cidade onde o sagrado se misturava ao cotidiano das ruas. As antigas procissões, as folias, as bandeiras e a música criavam uma cultura de expressão coletiva e religiosidade pública, hoje pouco visível no calendário oficial. Assim, a celebração do Divino no passado representa uma dimensão esquecida do Rio, marcada por um império efêmero, de caráter popular, que unia fé, festa e vida urbana de forma vibrante.


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