O governo dos Estados Unidos classificou facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, uma medida atribuída à nova postura de Washington na região, que busca exercer uma influência maior e limitar a soberania de países latino-americanos. Especialistas em relações internacionais e geopolítica avaliam que essa ação pode servir como ferramenta para subordinar decisões nacionais às estratégias dos EUA, além de abrir precedentes para futuras intervenções políticas na região.
Segundo o professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo, Paulo Borba Casella, a inclusão dessas organizações na lista terrorista permite que o governo americano aja contra seus membros, sem necessidade de uma declaração formal de guerra ou autorização do Congresso. Essa classificação, na visão do especialista, remete à mesma estratégia adotada com figuras de destaque na Venezuela, como Nicolás Maduro e Cilia Flores, detidos em Caracas no começo de janeiro.
Cientistas políticos afirmam que a postura que vem se consolidando reforça a doutrina de uma “soberania limitada”, conceito que indica o enviesamento da autonomia dos países latino-americanos por interesses dos Estados Unidos. De acordo com o professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Francisco Carlos Teixeira da Silva, essa política indica que Washington considera a soberania de nações como uma variável passível de intervenção sempre que for conveniente aos seus interesses.
Em 2025, os EUA divulgaram uma nova Estratégia de Segurança Nacional que reforça o argumento de sua proeminência na América Latina, visão que, na avaliação dos analistas, busca romper com a autonomia regional e reafirmar a liderança americana na área. Especialistas afirmam que esse movimento faz parte de uma resposta às crescentes forças econômicas e tecnológicas da China, que desafiam a hegemonia estadunidense no cenário global.
No contexto de ações mais agressivas na região, há também exemplos em outros países, como o México. O historiador Teixeira cita o caso do cartel de Jalisco, classificado como organização terrorista pelo governo dos EUA. Recentemente, uma equipe da CIA foi enviada ao território mexicano sem autorização oficial, o que provocou graves consequências, incluindo a morte de dois agentes em um acidente de carro no país. Essas ações têm causado irritação na administração mexicana e demonstram o impacto de classificações que muitas vezes têm efeitos diretos na cooperação internacional.
No Brasil, a decisão americana também é interpretada como uma tentativa de limitar a soberania nacional. Para Luiz Carlos Prado, professor de economia internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a medida indica uma diminuição da autonomia brasileira, sugerindo que o país deveria atuar como um aliado menor, sob a liderança dos interesses dos Estados Unidos. Essa classificação de grupos internos, incluindo movimentos sociais, sob o rótulo de apoiadores do terrorismo, pode ser utilizada como pretexto para repressões políticas sem provas concretas.
Além disso, analistas apontam que esse movimento reforça o histórico de desprezo dos EUA pelos tratados internacionais e pela soberania de outras nações. A estratégia de rotular determinados grupos ou regiões como terroristas tem sido empregada para justificar intervenções militares, como as ocorridas no Líbano, Síria e outros locais, sob a alegação de combate ao terrorismo, mesmo na ausência de fatos concretos que sustentem essas ações.
A atual política dos EUA na região evidencia uma tentativa de ampliar sua influência, operando através de justificativas jurídicas que facilitam intervenções militares ou políticas, independentemente do respeito às soberanias nacionais.
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