No início deste ano, o Brasil atingiu um marco preocupante: 80,4% das famílias estão endividadas. Em resposta, o governo lançou o programa “Desenrola 2.0”, voltado para facilitar a renegociação de dívidas de determinados grupos, prometendo descontos de até 90% sobre o valor principal e juros limitados a 1,99% ao mês. Uma das modalidades permite o uso de até 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), fundo que possui restrições de saque.
Criado na década de 1960, o FGTS foi concebido como uma reserva de segurança financeira para trabalhadores em caso de desemprego. Sua constituição é obrigatória, financiada por uma parcela do salário do trabalhador, sob a premissa de que os beneficiários não possuem facilidade para poupar, tornando o fundo uma espécie de poupança estatal. Apesar da intenção inicial de proteção, o fundo é atualmente utilizado também para facilitar empréstimos a baixas taxas, além de financiar programas sociais de habitação e saneamento, e rende uma taxa anual superior à inflação, embora ainda abaixo do real retorno de mercado.
Especialistas já alertaram que medidas intervencionistas, como a utilização de recursos do FGTS para quitações de dívidas, representam uma forma de controle estatal que pode reduzir a autonomia dos indivíduos. Friedman, renomado economista, descreveu esse tipo de ação como a “tirania da benevolência”, destacando os riscos de ações que, sob a justificativa de proteção social, limitam a liberdade dos cidadãos.
Além disso, a utilização do FGTS ocorre em um cenário de desequilíbrio fiscal, marcado por gastos públicos excessivos. Em março de 2026, o déficit primário do governo federal atingiu R$ 73,7 bilhões, o maior para o mês desde 1997. Essa situação resulta em aumento da inflação, elevação das taxas de juros e encarecimento do crédito, agravando o endividamento das famílias.
Partindo dessa conjuntura, o crescimento da dívida dos trabalhadores não decorre apenas de atitudes individuais, mas também de políticas fiscais que têm reduzido o poder de compra e os rendimentos reais. Assim, programas que prometem soluções rápidas, como o “Desenrola 2.0”, inscrevem-se em um ciclo vicioso alimentado por ações governamentais que, ao “salvá-las”, perpetuam dependência e dificuldades financeiras.
Especialistas continuam a destacar a necessidade de políticas fiscais responsáveis, a fim de evitar o agravamento do endividamento das famílias e a deterioração dos indicadores econômicos.
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