Na rodada recente do Campeonato Brasileiro, o Vasco conquistou uma vitória de virada contra o Fluminense, no Maracanã, após sair perdendo por 2 a 0 e vencer por 3 a 2. O jogo reforçou a rivalidade histórica entre os clubes, que recentemente ganhou novos contornos, não apenas pelo que ocorre dentro de campo, mas também por disputas nos bastidores e questões culturais que alimentam o antagonismo entre as equipes.
Nos últimos anos, o Vasco tem fortalecido sua imagem como uma entidade relacionada a causas sociais, especialmente na luta contra o racismo. Essa postura está associada à sua história de 1923, quando se destacou como um time formado majoritariamente por jogadores negros, e às suas campanhas de valorização da diversidade. O clube costuma usar slogans como “o legítimo clube do povo”, “a história mais bonita do futebol” e “respeito, igualdade, inclusão”, além de explorar essa identidade na loja oficial. Embora alguns desses slogans façam referência ao Flamengo, tentando criar uma narrativa de superioridade moral ou histórica, essa estratégia também tem gerado uma narrativa negativa contra o Fluminense.
Por outro lado, uma história antiga e bastante difundida associa o Fluminense a uma suposta prática de embranquecimento racial. Essa narrativa indica que o clube, considerado de elite ao longo de sua história, teria tido um jogador negro que usava pó-de-arroz para parecer branco. Entretanto, essa versão não possui respaldo documental consistente e é considerada uma narrativa deformada ou exagerada. A origem mais conhecida dessa história remonta ao jornalista Mário Filho, autor do livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, cuja abordagem mesclava fatos históricos com causos populares, muitos deles sem fontes verificáveis.
No relato de Mário Filho, de 1947, conta-se que um ex-jogador do Fluminense teria utilizado pó-de-arroz para parecer branco ao trocar de clube em 1914, episódio que supostamente teria causado zombaria da torcida adversária. No entanto, essa narrativa apresenta inconsistências: o jogo mencionado ocorreu bem antes do nascimento de Mário Filho, que na época tinha poucos anos e morava em Pernambuco. Não há registros em jornais da época que confirmem tal episódio. Pesquisadores afirmam que a justificativa mais plausível é que o jogador usava um pó antisséptico para se trocar após o barbear, e que as provocações seriam de caráter comportamental, não racial.
Assim, essa história, como muitas outras envolvendo o futebol, acaba circulando de forma quase mítica, muito mais pela tradição oral e pelas versões construídas ao longo do tempo do que por fatos verificáveis. A persistência dessas narrativas demonstra como a identidade dos times e suas histórias alimentam mitos que muitas vezes se sobrepõem à realidade factual no imaginário das torcidas.
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