No próximo sábado, 15 de agosto, será celebrado o bicentenário da Fundação da Irmandade do Santíssimo Sacramento, Santo Antônio dos Pobres e Nossa Senhora dos Prazeres, uma das mais antigas associações religiosas ativas no centro do Rio de Janeiro. A data marca os 219 anos de criação dessa confraria, reconhecida oficialmente desde 1807, com registros formais preservados pela própria instituição, por órgãos arquivistas e por pesquisas acadêmicas baseadas em seus arquivos históricos.
Fundada por devotos de Santo Antônio, a irmandade foi criada num contexto de preparação para a chegada da corte portuguesa ao Rio, prevista para 1808. Desde sua origem, a entidade tinha como missão oferecer acolhimento aos pobres, uma atividade que emerge de forma intrínseca ao propósito do grupo, e não como uma ação secundária. Hoje, sob a liderança de seu atual provedor, João Queiroga, a instituição mantém ações de assistência social na Rua dos Inválidos, revelando uma continuidade de seu compromisso com os necessitados.
A data também remete a uma conexão simbólica com Santo Antônio de Lisboa, considerado por tradição como seu nascimento em 1195. Essa associação reforça a forte ligação do santo com a missão de auxílio aos mais vulneráveis, característica que evidenciou-se ao longo de mais de oito séculos de devoção, especialmente na história do Rio de Janeiro.
A trajetória do templo que hoje perdura no centro da cidade começou com um projeto de Antônio José de Souza Oliveira, um negociante português que adquiriu um terreno na confluência das ruas dos Inválidos e do Senado e construiu a primeira capela do local. Dados históricos revelam, porém, que o fundador — também conhecido pelo nome de Antônio José Panella — foi um artesão que obteve financiamento para a obra mediante trabalho e doações, enfrentando dificuldades como um terreno instável e laços com condições ambientais adversas, como inundações recorrentes. Mesmo assim, a Igreja foi concluída em 1811, com Panella dedicando esforços também para construir casas de acolhimento aos pobres ao seu redor.
Na evolução do templo, notam-se várias intervenções, a fim de preservar a estrutura e melhorar suas condições. Destaca-se uma grande reforma na década de 1940, que elevou o edifício por motivo de inundações e que resultou na sua atual configuração neorromânica, com vitrais alusivos à vida de Santo Antônio. Escavações recentes revelaram camadas mais antigas do piso, conservadas sob uma estrutura de vidro, evidenciando transformações físicas ao longo dos anos.
Desde sua fundação, a igreja de Santo Antônio dos Pobres passou por uma rápida expansão de ajuda social e de reconhecimento institucional. Em 1854, tornou-se sede provisória da nova freguesia local, enquanto a irmandade crescia em patrimônio e atividades. Documentos oficiais de meados do século XIX indicam que o nome completo da confraria já incluía referências a Nossa Senhora dos Prazeres e ao Santíssimo Sacramento, consolidando sua identidade religiosa e social ao longo do tempo.
Embora a estrutura atual tenha sofrido várias reformas para se adaptar às condições do solo e às intempéries da cidade, o espírito de ajuda permanece. A realização de ações pontuais, como a entrega de alimentos e itens básicos, continua presente, conectando o passado de Panella, que construiu as primeiras casas de acolhimento, com as atividades recentes de assistência social.
A permanência da irmandade reflete a continuidade de seu propósito original, que inclui oferecer socorro material e espiritual aos mais vulneráveis. Assim, o aniversário de sua criação vai além da comemoração de uma tradição secular, simbolizando também a manutenção de uma função social que atravessou diferentes regimes políticos e mudanças urbanas na cidade. Ao longo de mais de dois séculos, essa instituição preservou, na prática, a missão de assistência que inspirou sua fundação.
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