A cidade de Kotor, situada na costa do Montenegro, destaca-se por sua paisagem de beleza singular, marcada por um fiorde de águas azuis intensas que se estende por aproximadamente 30 quilômetros, cercado por escarpadas cadeias montanhosas. No interior desse vale marítimo encontra-se uma cidade cujas raízes remontam à antiga Kathar, fundada por gregos há cerca de dois mil anos. Durante o período romano, a região chamou a atenção do Imperador Júlio César, que combateu piratas que utilizavam esconderijos na área para ameaçar o comércio mediterrâneo. Hoje, Kotor apresenta-se como uma urbe medieval fortificada, preservada ao longo de sua história marcada por invasões e disputas de poder, permanecendo uma espécie de relicário arquitetônico do antigo Reino de Montenegro.
Histórica e geograficamente, a cidade esteve entre os impérios otomano e austríaco, tendo sido uma importante possessão da República de Veneza, sob o nome de Cattaro. Ao longo dos séculos, Ponto de interesse estratégico e cultural, Kotor sempre esteve na fronteira das tentativas de controle entre diferentes poderes. Sua estrutura, marcada por igrejas românicas, ruas estreitas e pórticos esculpidos em pedra, revela uma mistura de influências e uma história de resistência e acolhimento.
Atualmente, Montenegro busca ampliar sua notoriedade além do turismo, principalmente pelos seus vinhos e frutos do mar, valorizando sua herança cultural. Em 2022, o país acolheu o primeiro Festival Internacional de Geo-Literatura na cidade de Kotor, em celebração ao bicentenário do conceito de literatura mundial, cunhado pelo escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe. Essa iniciativa reuniu autores e pensadores multilíngues de várias nações, incluindo países do continente europeu e de outros continentes, como Brasil, Grécia, Itália, República Checa e Holanda. O evento promove discussões sobre terra, origem e identidade, propondo uma reflexão sobre as fronteiras políticas e culturais em contraponto ao conceito de território.
O festival destacou a diversidade cultural e as múltiplas tradições, promovendo diálogos que desafiam a homogeneização trazida pela era digital e suas algoritmicas. Entre as participações, há a presença de acadêmicos gregos que apresentaram legados bizantinos, assim como estudiosos brasileiros abordando a relação do país com suas matrizes indígenas, africanas e europeias. Também sobressaem iniciativas de autores brasileiros que buscam resgatar raízes culturais, refletindo uma busca por distinguir entre território físico e ancestralidade.
Essas trocas culturais tendem a gerar obras, traduções e debates filosóficos, fortalecendo pontes entre povos por meio de suas expressões e Saberes. Muitos especialistas acreditam que eventos como esse são essenciais para resgatar e valorizar a diversidade cultural, em um momento em que a globalização e as tecnologias parecem impor uniformidade. A participação brasileira, representada por convidados do Rio de Janeiro, reafirma o interesse do país em conectar-se com esses diálogos internacionais, promovendo o intercâmbio de ideias e tradições. Ainda que seja um evento de escala local, sua repercussão sugere potencial para influenciar futuras ações culturais e acadêmicas em diversas regiões.
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