No Brasil, o empreendedorismo feminino vem apresentando crescimento significativo nos últimos anos, especialmente nas comunidades periféricas. Um exemplo ilustrativo dessa tendência é a história de Angélica Silva, que só após participar de cursos de capacitação para trançar cabelos percebeu que seu trabalho anterior não cobria todos os custos e esforços envolvidos. Hoje, ela administra um salão de beleza estruturado, atua como instrutora e ocupa uma liderança regional em um coletivo de profissionais do setor.
A trajetória de Angélica é uma das muitas reais que evidenciam a expansão do empreendedorismo liderado por mulheres no país. Segundo estudo do Sebrae, nos últimos dez anos houve um aumento de 27% nesse segmento, superando a expansão masculina em 16 pontos percentuais. Em 2025, mais de dois milhões de novos pequenos negócios pertencentes a mulheres deverão ter sido abertos, representando 42% do total de registros nesse período, uma marca histórica. No Rio de Janeiro, as mulheres lideram 45% dos Microempreendedores Individuais (MEIs), contribuindo para essa estatística positiva.
Entretanto, os dados também revelam disparidades. A proporção de mulheres negras que abrem negócios por necessidade é de 50%, enquanto essa taxa entre mulheres brancas é de 35%. Ainda que muitas dessas profissionais tenham formação, a remuneração média de mulheres negras à frente de seus empreendimentos é de aproximadamente R$ 1.986, valor 27% inferior ao recebido por homens negros, além de estar bem abaixo do que recebem mulheres brancas e homens brancos. Especialistas destacam que as mulheres enfrentam múltiplos desafios associados à sua condição de gênero e raça.
A atuação de organizações sociais como a ONG Mulheres da Parada visa promover transformação nesse cenário. Fundada em 2020 na comunidade Parada São Jorge, em São Gonçalo, a entidade começou ajudando famílias a garantir alimentação adequada por meio de um mercadinho solidário. Com o crescimento da demanda, passou a oferecer cursos de qualificação em áreas como manicure, confeitaria, tranças, cosméticos naturais e energia solar, entre outros. As formações incluem também aulas de gestão financeira, marketing digital, precificação e planejamento, competências essenciais para o sucesso de negócios próprios.
A iniciativa tem registrado forte interesse, evidenciado pelo número de inscrições superior ao de vagas oferecidas, demonstrando o impacto na capacitação de mulheres. Além de adquirir habilidades técnicas, as participantes recebem orientação para gerir seus negócios de forma mais eficiente. Em 2025, a ONG foi reconhecida em um prêmio nacional voltado ao fortalecimento de iniciativas de economia solidária e inclusão social.
Casos de sucesso confirmam a efetividade dessas ações. Angélica Silva, por exemplo, iniciou sua trajetória na ONG com pouca autoconfiança, especialmente na fala em público, mas com apoio psicológico e orientação adequada, conseguiu transformar seu espaço de trabalho e ampliar suas capacidades. Com investimentos conquistados durante a capacitação, ela reformou seu salão, aprimorou sua presença digital e agora também forma outras profissionais do setor. Sua evolução é marcada pelo crescimento do próprio negócio, que atende clientes por agendamento, além de oferecer cursos de formação para novas trancistas.
Outro exemplo é o de Pâmela Nascimento, que, após um período de crise emocional, decidiu apostar na confeitaria. Aproveitando as oportunidades proporcionadas pelos cursos, criou uma marca do zero, vendendo bolos, ovos de chocolate e outros doces. Sua produção aumentou e ela planeja abrir um espaço próprio, consolidando uma nova fase de sua vida, agora baseada na autonomia financeira proporcionada pelo empreendedorismo.
Para as organizações de apoio, como a Mulheres da Parada, esse percurso revela que oferecer oportunidades de qualificação e suporte técnico é fundamental para promover inclusão econômica, especialmente entre mulheres negras, mães solo e moradores de áreas periféricas. Além de contribuir para a autonomia financeira, esses programas ampliam a autoestima e o empoderamento dessas mulheres, que passam a inspirar outras a seguir o mesmo caminho.
Atualmente, a iniciativa busca ampliar seus espaços físicos, consolidando uma sede própria que funcione como centro de geração de renda coletiva e espaço de incentivo à economia circular na comunidade. A experiência acumulada ao longo dos anos reforça a importância de ações contínuas de capacitação e valorização do empreendedorismo feminino como instrumento de transformação social.
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