Na ocasião de uma operação da Polícia Federal, foi revelado um episódio envolvendo o líder do Comando Vermelho (CV) no Complexo da Penha, identificado como Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca. Ainda em janeiro do ano passado, Doca recebeu uma mensagem de áudio de um comparsa alertando sobre a intervenção policial, recomendando a troca de aparelho telefônico e de número, após identificar que seu telefone estava sendo rastreado. A comunicação também incluía uma foto da fachada da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais, além de uma referência à retomada de férias do delegado responsável, sugerindo conhecimento privilegiado da facção sobre ações policiais.
Segundo um inquérito da Polícia Federal, o grupo criminoso busca consolidar sua influência não apenas nas atividades de tráfico, mas também na política e na economia formal. A investigação aponta que integrantes do CV estão interessados em articular conexões com políticos influentes ao estado do Rio de Janeiro, em tentativa de ampliar o poder e proteger suas operações. Líderes como Doca, que possui mais de 300 registros criminais e liderou incursões em mais de 40 favelas nos últimos anos, atuam na coordenação dessas ações, embora estejam sob o comando de Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP. Preso há quase duas décadas em regime de segurança máxima, Marcinho administra os negócios ilícitos por meio de intermediários, incluindo advogados e familiares.
As operações do crime organizado também migraram para além do tráfico de drogas e armas, atingindo setores legítimos da economia. Documentos apreendidos indicam envolvimento com provedores de internet e transações com criptomoedas, além de tentativas de infiltração nas instituições de poder. As interceptações revelam mensagens de janeiro de 2025, nas quais Doca discute com um traficante, Carlos Costa Neves, conhecido como Gardenal, estratégias para aproximação de um deputado estadual, Roosevelt Barreto Barcelos. A conversa sugere intenções de obter proteção política e influência sobre decisões públicas, além de utilizá-lo como porta-vozes na tentativa de evitar ações do Estado que possam prejudicar os interesses da facção.
As interceptações também indicam uma ligação de Barreto com o líder de uma facção rival, apontando uma possível aliança que poderia facilitar ações conjuntas ou influências entre grupos criminosos. Em meio às investigações, uma demolição de um resort ilegal construído por essa organização rival foi postergada por mais de um ano, supostamente por determinação política relacionada ao deputado. As autoridades abriram procedimentos sob sigilo para apurar as operações.
Documentos sigilosos e comunicações interceptadas também apontam que integrantes do CV tinham acesso a decisões judiciais e informações do Ministério Público do Rio, obtidos através de um policial militar. Em um backup de armazenamento na nuvem, foram encontrados textos em elaboração referente a uma denúncia contra Peixão, líder de uma organização rival, além de ordens de mandados de busca e apreensão, o que indica passivamente uma troca de informações sigilosas entre integrantes de facções e agentes públicos. Testemunhos de conversas com policiais militares demonstram um esquema de troca de informações que beneficiava ambos os lados, incluindo pagamento de propinas.
Reações de envolvidos indicam que as declarações feitas publicamente buscam esclarecer que não mantêm vínculos com o crime organizado. Deputados, ex-governadores e figuras públicas negam qualquer relação com atividades ilícitas relacionadas ao tráfico ou a facções criminosas. Em suas manifestações, eles ressaltam que suas participações em reuniões institucionais ocorreram em ambientes oficiais e que as hipóteses de associação a organizações criminosas são infundadas. O ex-governador Cláudio Castro destacou o esforço do Estado na luta contra o crime, incluindo operações de combate ao CV realizadas durante seu mandato.
A investigação continua, após a apreensão de dados e comunicações, aguardando desdobramentos futuros que possam elucidar de forma mais detalhada o alcance das supostas conexões entre criminosos, políticos e setores da economia formal no estado do Rio de Janeiro.
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