Em outubro de 2025, uma operação policial no Rio de Janeiro resultou em 122 mortes e chamou a atenção por imagens chocantes de corpos alinhados em uma rua no bairro da Penha, na zona norte. Apesar do alto número de óbitos, o impacto na segurança pública foi avaliado como nulo em relatórios oficiais.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), divulgando nesta sexta-feira (6) seu relatório sobre a ação, afirmou que a intervenção não promoveu o enfraquecimento do crime organizado, mas agravou o sofrimento social na comunidade, aumentou a desconfiança nas instituições e elevou o nível de violência estatal a um patamar sem precedentes.
Segundo a comissão, a estratégia adotada repete o padrão de operações policiais longas, com forte presença militar nos territórios e endurecimento das ações policiais, muitas vezes com o uso de força letal, mesmo em situações de alto risco para civis.
Dados e análises indicam que o aumento das mortes não contribui para a diminuição da criminalidade, além de causar violações graves de direitos humanos. O relatório também destaca que o modelo tem efeito ineficaz de longo prazo, pois criminosos substituídos e redes criminosas continuam operando após as ações policiais.
Membros da CIDH visitaram o Rio de Janeiro nos primeiros dias de dezembro de 2025, reunindo-se com autoridades, representantes da sociedade civil, especialistas, defensores de direitos humanos e familiares de vítimas. A investigação também utilizou dados públicos e conteúdo jornalístico, incluindo várias reportagens de uma agência nacional.
Foram apontadas diversas falhas na condução da operação, como a preservação inadequada das cenas de crime, fragilidades na autonomia das perícias, problemas na cadeia de custódia e altas taxas de arquivamento de inquéritos. A comissão reforça a necessidade de reformulações profundas na abordagem dos problemas sociais e de segurança, defendendo políticas de inclusão, prevenção e justiça eficazes para combater o ciclo de violência, encarceramento e impunidade nas periferias urbanas.
Entre as recomendações, destacam-se a priorização de ações preventivas, reforço de recursos para inteligência policial, controle eficaz do tráfego de armas, revisão de protocolos de segurança alinhados às normas internacionais de direitos humanos e autonomia das investigações forenses. Além disso, sugere-se fortalecer o controle externo das ações policiais e ampliar a cooperação entre os diferentes níveis de governo, além de implementar legislação capaz de garantir a investigação automática de casos de massacres policias.
A comissão também recomenda a produção regular de dados estatísticos confiáveis e a realização de investigações independentes, transparentes e minuciosas sobre mortes e desaparecimentos relacionados à operação. Tratamentos adequados e reparações rápidas às vítimas e seus familiares também são considerados essenciais.
A operação denominada Contenção, promovida pelas polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro, foi a maior e mais letal nos últimos 15 anos. Com um efetivo de 2,5 mil policiais, ela tinha como objetivo conter o avanço da facção criminosa Comando Vermelho por meio de 180 mandados de busca e apreensão e 100 ordens de prisão, incluindo pedidos de outras jurisdições.
A ação, que resultou na prisão de 113 pessoas, das quais 33 de outros estados, recolheu 118 armas e uma tonelada de drogas, também gerou grande comoção social. Confrontos com criminosos provocaram pânico na cidade, com tiroteios intensos, fechamento de vias, escolas e postos de saúde. Moradores e organizações de direitos humanos denunciaram a operação como uma verdadeira chacina, com corpos encontrados nas matas próximas, vítimas de execuções e degolamentos.
O governo estadual afirmou que a operação foi um sucesso, alegando que os mortos reagiram com violência, e que os que se entregaram foram presos. Contudo, críticos e familiares de vítimas consideram a ação desproporcional e violenta, apontando problemas na condução e nas consequências de uma ofensiva que permanece sob análise.
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