A Prefeitura do Rio oficializou o tombamento do complexo do Hospital Nossa Senhora das Dores, localizado em Cascadura, na Zona Norte. A publicação do decreto no Diário Oficial desta quarta-feira (29) determina a proteção legal integral do conjunto arquitetônico, reconhecendo sua importância histórica e cultural para a região.
Situado na Avenida Ernani Cardoso, o hospital passou a ter sua estrutura e aspecto preservados por lei. Fundado em 1884 pela Santa Casa da Misericórdia, na antiga Chácara do Ferraz, foi o primeiro do Brasil dedicado ao tratamento da tuberculose. Na época de sua fundação, o isolamento dos pacientes era considerado uma medida sanitária fundamental, e o terreno foi adquirido pelo Barão de Cotegipe, na condição de provedor da Irmandade da Misericórdia.
O decreto reconhece o hospital como um exemplo importante da arquitetura hospitalar pavilhonar, modelo adotado no início do século XX. Essa tipologia valorizava aspectos como ventilação, iluminação natural e circulação eficiente, elementos essenciais para o funcionamento do espaço de saúde. O conjunto inclui seis pavilhões, áreas verdes, uma capela neogótica construída entre 1911 e 1917, além de passarelas, esculturas e detalhes arquitetônicos originais que compõem o patrimônio.
Ao longo do tempo, o hospital ampliou sua atuação, deixando o foco exclusivo no tratamento da tuberculose para atender diversas especialidades, especialmente a psiquiatria. Nos últimos anos, porém, parte da estrutura foi desativada por questões financeiras. No ano passado, a prefeitura inaugurou uma residência de acolhimento no complexo, com foco em pessoas em situação de rua, dentro do programa Seguir em Frente.
A proteção legal abrange não só as edificações principais, como a capela, os pavilhões, o necrotério e as passarelas, bem como as antigas estruturas de uso secundário, como as estrebarias, atualmente adotadas como lavanderia, além de esculturas, ornamentos e o elevador do prédio de apoio. Para evitar intervenções que descaracterizem o local, a administração municipal criou uma Área de Entorno de Bem Tombado, na qual novas construções terão limite de altura de 15 metros e regulamentações específicas para publicidade e elementos decorativos.
A iniciativa de tombar o complexo contou com a atuação da vereadora Tainá de Paula (PT), que apresentou projeto de lei para essa proteção. Ela destacou a importância do imóvel para a história arquitetônica e social do subúrbio carioca, particularmente por seu papel na assistência às populações vulneráveis desde o século XIX, além de sua relevância para a memória da medicina na cidade.
Apesar do legado cultural, a preservação do patrimônio no subúrbio ainda é uma questão a ser ampliada, uma vez que grande parte dos bens protegidos na cidade está concentrada na Zona Centro e na Zona Sul, enquanto os bairros suburbanos possuem poucos exemplares tombados. Especialistas destacam a relevância de ações como o tombamento para fortalecer essa memória e impedir a descaracterização de áreas de valor histórico.
Proprietária do complexo, a Santa Casa da Misericórdia apoia a proteção do espaço, afirmando que o tombamento preserva a história da medicina e a tradição de cuidado e caridade promovida pela instituição ao longo dos anos. A medida, contudo, não implica desapropriação ou a impossibilidade de realizar obras, desde que autorizadas pelos órgãos de proteção do patrimônio. Qualquer intervenção deverá passar por análise e aprovação, e, em caso de dano, os responsáveis poderão ser obrigados a restituir as condições originais do imóvel.
Até o momento, o tombamento do Hospital Nossa Senhora das Dores representa uma importante medida de preservação do patrimônio cultural na Zona Norte, contribuindo para a defesa da identidade local e dificultando pressões imobiliárias na região. As ações de proteção visam garantir a manutenção de sua estrutura, história e valores arquitetônicos.
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