No interior de Cachoeiras de Macacu, próximo à fronteira com Guapimirim, permanecem as ruínas da Igreja São José da Boa Morte, símbolo de uma história marcada por adversidades e transformações. Origina-se de uma edificação que, ao longo dos séculos, resistiu ao tempo, às crises sanitárias e ao abandono, deixando apenas vestígios de sua antiga estrutura.
A história da região é marcada por um período de epidemias que impactaram a população no século XIX. Entre 1828 e 1833, uma malária conhecida como Febre de Macacu levou moradores a buscar refúgio na igreja, que se tornou um local de contenção e esperança. Posteriormente, os surtos de febre amarela, que atingiram o Rio de Janeiro em 1849-1850 e se repetiram em 1870, agravaram ainda mais o cenário de crises na área, levando a deslocamentos de comunidades inteiras. As condições sanitárias precárias e epidemias frequentes contribuíram para a deterioração do patrimônio local, incluindo a igreja.
Originalmente, construída por uma irmandade por volta de 1734, a Igreja São José da Boa Morte era de estrutura simples, de pau-a-pique, dedicada ao padroeiro da tranquilidade na morte. Na segunda metade do século XIX, passou por reformas que a dotaram de paredes de alvenaria, pisos de mármore e revestimentos de azulejos, além de contar com um coro e uma torre sineira. Entretanto, o abandono futuramente culminou na deterioração completa do edifício, deixando apenas as paredes de pedra e tijolo como testemunhas de seu passado, sem telhado, portas ou janelas.
A valorização do monumento começou a ganhar força após o tombamento pela instituição responsável por proteger o patrimônio cultural. A medida visa preservar a estrutura como símbolo do tempo e da resistência histórica, reconhecendo seu valor artístico e cultural. Mesmo assim, as ações de conservação enfrentaram obstáculos, com o avanço do desgaste natural e do abandono, ameaçando sua preservação definitiva.
Em 2014, um projeto promovido por estudantes de arquitetura da PUC-Rio buscou consolidar e valorizar as ruínas da igreja. O trabalho acadêmico chamou a atenção da prefeitura local, que apoiou a iniciativa com recursos obtidos por meio de leis de incentivo cultural. Como resultado, o entulho acumulado ao longo de décadas foi removido, fragmentos de cerâmica e vidro de época foram recuperados e expostos em um centro de visitantes construído próximo às ruínas. Além disso, a vegetação invasora foi eliminada, as estruturas foram reforçadas e uma nova plataforma foi criada no lugar do antigo altar e coro, evidenciando as formas originais do edifício e promovendo sua interação com o visitante.
Hoje, a fachada da igreja ainda se apresenta imponente, com sua ampla entrada, janelas do coro e um frontão que destacam sua estética original. O projeto de preservação foi liderado pela Elysium Sociedade Cultural, com acompanhamento da arquiteta Jéssica Marques, sob pesquisa histórica de Rachel Wider e execução da empresa Biapó. Assim, as ruínas da Igreja São José da Boa Morte passaram a integrar de forma mais presente a paisagem cultural de Cachoeiras de Macacu, revelando-se como um vestígio vivo da história local.
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