Em 2011, a redescoberta do Cais do Valongo durante a expansão do Porto Maravilha revelou um importante capítulo da história do Rio de Janeiro e do Brasil, relacionado ao tráfico de escravizados. A área, reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial em 2017, evidencia o local de desembarque de aproximadamente um milhão de pessoas escravizadas até sua desativação, em 1831.
A trajetória do Valongo remonta ao século XVIII, quando, até meados dos anos 1770, o desembarque de escravos acontecia na Praia do Peixe. Em 1774, uma legislação transferiu essa atividade para a região, após preocupações com a saúde pública e a gestão do fluxo de pessoas. Inicialmente, os escravizados eram desembarcados na alfândega e transportados por barcos até o cais, onde permaneciam até serem vendidos na cidade. A partir de 1779, a área passou a ser o principal ponto de entrada para a escravidão no Rio, com seu apogeu entre 1808, com a chegada da corte portuguesa, e 1831, quando o tráfico foi oficialmente proibido.
Nos anos seguintes ao encerramento do tráfico, o Cais do Valongo ainda passou por alterações, como um aterro de 60 centímetros, feito em 1843, que recebeu a Princesa Teresa Cristina. Posteriormente, em 1904, o cais foi soterrado durante uma ampla reforma urbana liderada pelo prefeito Pereira Passos.
A redescoberta do sítio arqueológico, no entanto, ocorreu por acaso. Durante uma ampliação habitacional, em 1996, ossos humanos foram encontrados sob uma residência na Gamboa. A descoberta levou à identificação de um antigo cemitério de escravizados, onde estima-se que tenham sido sepultadas cerca de 40 mil pessoas. O local, conhecido como Cemitério dos Pretos Novos, funcionou aproximadamente entre 1770 e 1830, registrando mortes de vítimas da travessia atlântica e de doenças relacionadas ao tráfico.
Hoje, o local é objeto de preservação e pesquisa pelo Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), fundado em 2005. A instituição promove atividades educativas, culturais e de memória, como visitas guiadas, exibições e lançamentos de livros que abordam o tráfico, a diáspora africana e as trajetórias de escravizados. O espaço funciona em uma casa histórica, construída em 1866, e mantém uma relação próxima ao circuito de atrações voltadas à origem africana na região do Porto, recebendo cerca de 300 mil visitantes ao longo de seus anos de atuação.
A preocupação dos integrantes do IPN é a continuidade da preservação, diante de dificuldades financeiras que envolvem a manutenção do espaço, incluindo a reforma de instalações e programas de apoio. Recentemente, há negociações em andamento com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a viabilização de melhorias na infraestrutura do novo centro cultural ligado ao local, ampliando o impacto cultural e educativo da memória afro-brasileira.
A discussão permanece sobre a importância de valorizar tanto o Cais quanto o Cemitério, ambos símbolos do passado escravagista de forma distinta — um como ponto de chegada, o outro como espaço de despedida e sepultamento. Merced, responsável pelo IPN há mais de duas décadas, destaca que, apesar dos avanços, ainda há muito a ser feito para garantir a permanência e a ampliação dessas ações de memória e reconhecimento.
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