abril 14, 2026
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14/04/2026

Lançamento do livro aborda protagonismo de trabalhadoras domésticas na literatura brasileira

No Brasil, cerca de sete milhões de pessoas atuam na área de trabalho doméstico, incluindo funções como babás, faxineiras, cozinheiras, cuidadoras de idosos, lavadeiras e diaristas, de acordo com dados do IBGE. A maior parte dessas profissionais é composta por mulheres negras, pertencentes a classes socioeconômicas baixas e responsáveis pelo sustento familiar. Apesar de sua importância na sociedade e na economia, esse grupo enfrenta condições de trabalho precárias, baixa remuneração e elevada vulnerabilidade para aposentadoria.

Historicamente legado da escravidão, o trabalho doméstico mantém sua relevância nos dias atuais, sendo considerado um serviço essencial em períodos de crise, como durante a pandemia de Covid-19. Essa classificação resultou em um aumento alarmante no número de mortes dessas profissionais durante o período. A ativista francesa Françoise Vergès destacou a invisibilidade dessas mulheres, afirmando que elas representam as “mulheres invisíveis que abrem o mundo”.

Na mesma linha, uma iniciativa acadêmica promove um diálogo online sobre o papel dessas trabalhadoras na cultura brasileira. O evento, marcado para as 18h no canal “Estudos da Literatura” da Universidade Federal Fluminense (UFF), reunirá a autora Mariana Filgueiras, além das professoras Eurídice Figueiredo e Eliza Araújo, para debater o tema.

A pesquisa de Mariana Filgueiras, que também resultou no livro “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea”, investiga por que as protagonistas dessas profissionais pouco aparecem na narrativa literária brasileira, apesar de sua presença histórica e social. A obra, que será lançada oficialmente em 16 de abril e já está disponível para download gratuito, analisa títulos como “Perifobia”, “Com armas sonolentas”, “Suíte Tóquio” e “Solitária”, considerados pioneiros na centralização dessas personagens nas histórias, revelando suas subjetividades, suas relações familiares e novas perspectivas sobre o trabalho doméstico.

Segundo Mariana, a presença dessas personagens na literatura tem potencial para gerar debates e reflexões de forma natural, sem a necessidade de uma abordagem panfletária. No entanto, ela alerta para o risco de reforçar estereótipos positivos, o que pode contribuir para uma representação simplificada e desumanizadora dessas profissionais. A autora cita a socióloga Patricia Hill-Collins ao falar de “imagens de controle”: estereótipos que, embora possam parecer positivos, acabam engessando a personagem e limitando sua complexidade, o que torna fundamental uma abordagem cuidadosa na tentativa de reabilitação dessas figuras na narrativa.

Atualmente, a pesquisa que originou o livro analisa 37 obras publicadas entre 1859 e 2024, evidenciando que a primeira protagonista trabalhadora doméstica surgiu em 2018. O estudo busca compreender o desenvolvimento do tema na literatura brasileira e promover uma reflexão mais aprofundada sobre a representação dessas mulheres na cultura nacional.


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