No Brasil, cerca de sete milhões de pessoas atuam na área de trabalho doméstico, incluindo funções como babás, faxineiras, cozinheiras, cuidadoras de idosos, lavadeiras e diaristas, de acordo com dados do IBGE. A maior parte dessas profissionais é composta por mulheres negras, pertencentes a classes socioeconômicas baixas e responsáveis pelo sustento familiar. Apesar de sua importância na sociedade e na economia, esse grupo enfrenta condições de trabalho precárias, baixa remuneração e elevada vulnerabilidade para aposentadoria.
Historicamente legado da escravidão, o trabalho doméstico mantém sua relevância nos dias atuais, sendo considerado um serviço essencial em períodos de crise, como durante a pandemia de Covid-19. Essa classificação resultou em um aumento alarmante no número de mortes dessas profissionais durante o período. A ativista francesa Françoise Vergès destacou a invisibilidade dessas mulheres, afirmando que elas representam as “mulheres invisíveis que abrem o mundo”.
Na mesma linha, uma iniciativa acadêmica promove um diálogo online sobre o papel dessas trabalhadoras na cultura brasileira. O evento, marcado para as 18h no canal “Estudos da Literatura” da Universidade Federal Fluminense (UFF), reunirá a autora Mariana Filgueiras, além das professoras Eurídice Figueiredo e Eliza Araújo, para debater o tema.
A pesquisa de Mariana Filgueiras, que também resultou no livro “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea”, investiga por que as protagonistas dessas profissionais pouco aparecem na narrativa literária brasileira, apesar de sua presença histórica e social. A obra, que será lançada oficialmente em 16 de abril e já está disponível para download gratuito, analisa títulos como “Perifobia”, “Com armas sonolentas”, “Suíte Tóquio” e “Solitária”, considerados pioneiros na centralização dessas personagens nas histórias, revelando suas subjetividades, suas relações familiares e novas perspectivas sobre o trabalho doméstico.
Segundo Mariana, a presença dessas personagens na literatura tem potencial para gerar debates e reflexões de forma natural, sem a necessidade de uma abordagem panfletária. No entanto, ela alerta para o risco de reforçar estereótipos positivos, o que pode contribuir para uma representação simplificada e desumanizadora dessas profissionais. A autora cita a socióloga Patricia Hill-Collins ao falar de “imagens de controle”: estereótipos que, embora possam parecer positivos, acabam engessando a personagem e limitando sua complexidade, o que torna fundamental uma abordagem cuidadosa na tentativa de reabilitação dessas figuras na narrativa.
Atualmente, a pesquisa que originou o livro analisa 37 obras publicadas entre 1859 e 2024, evidenciando que a primeira protagonista trabalhadora doméstica surgiu em 2018. O estudo busca compreender o desenvolvimento do tema na literatura brasileira e promover uma reflexão mais aprofundada sobre a representação dessas mulheres na cultura nacional.
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