No Rio de Janeiro, vestígios de profissões tradicionais ainda resistem em meio à transformação urbana, preservando práticas que praticamente desapareceram. Entre essas atividades, destacam-se o ofício do amolador de facas, o trabalho artesanal do ourives e a fabricação manual de chapéus, que sobrevivem de forma discreta em bairros da cidade. Essas profissões representam uma ligação com um passado em que a cidade era marcada por pequenos ateliês, comércio artesanal e costumes mais slow-paced.
O retrato desses ofícios foi realizado por um estudo da UFRJ, conduzido pelas pesquisadoras Gisele de Araújo Lopes e Milla Monteiro, sob supervisão de Maurício Lissovsky. A pesquisa acompanha a rotina de três profissionais cariocas que mantêm vivas suas atividades: um amolador de facas, um ourives e um chapeleiro. O objetivo principal foi resgatar memórias de uma época em que a rua era palco de trabalhos manuais, como o amolamento de utensílios, a confecção de joias à mão e o uso frequente de chapéus na moda da cidade.
Entre os personagens, destaca-se Seu Almir, dono da Chapelaria Porto, próxima à Central do Brasil. A loja mantém um ambiente que parece saído de outra época, carregando uma história de família dedicada à fabricação e restauração de chapéus usados por figuras locais, marinheiros e personagens de televisão. Ainda existem outros estabelecimentos tradicionais, como a Chapelaria Alberto, na rua Miguel Couto. Com a redução do uso cotidiano do chapéu, essa profissão passou a ser mais uma lembrança do passado, porém, sua resistência se manteve graças ao vínculo com o teatro, o samba e produções televisivas, que demandaram seus serviços.
Outro retratado é Seu Hilmo, o amolador de facas que percorre as ruas do Flamengo em sua bicicleta, símbolo de uma cidade onde a figura do profissional de rua já foi tão comum quanto outros vendedores tradicionais. A pesquisa destaca o simbolismo desse ofício, que representa uma faceta do Rio que tem se esvaziado com o tempo.
Também está presente a história do ourives de Vigário Geral, um artista e sambista dedicado à produção de joias artesanais. Essa atividade reflete um Rio que, no passado, abrigava pequenas oficinas domésticas longe do comércio industrializado, praticada por moradores que preservavam seu ofício com orgulho.
A pesquisa não reduz esses profissionais a simples exemplos de uma modernidade em avanço, mas busca compreender as histórias, as relações humanas e as subjetividades por trás dessas atividades. Assim, revela-se um retrato afetivo do Rio, focado na existência de personagens anônimos e de pequenos negócios que formam uma parte importante de sua história invisível.
O estudo também enumera profissões que já marcaram a rotina do carioca, como fotógrafos de praça, alfaiates, técnicos em máquinas de escrever, parteiras, sapateiros, entre outros. Muitas delas permanecem ativas em locais pouco visíveis, sustentadas por clientes fiéis e pelo sentimento de nostalgia.
Essa preservação de práticas tradicionais é considerada uma característica diferenciada do Rio de Janeiro, que consegue manter, em meio à urbanização acelerada, pequenas manifestações do seu passado. Quaisquer que sejam as portas antigas escondidas na cidade, muitas delas ainda podem abrigar profissionais que consolidam esse vínculo com a história, mantendo viva uma essência que parece resistir ao tempo.
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