outubro 15, 2026
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15/10/2026

Memória da pandemia: relato de médica do Rio de Janeiro sobre perdas e omissões

Em 2020, a rotina de uma médica intensivista foi marcada pelos desafios causados pela pandemia de Covid-19, quando a doença chegou ao Brasil. Naquele período, ela frequentemente voltava para casa após longos plantões, ouvindo os alarmes dos monitores de pacientes intubados, uma experiência que trouxe à tona a intensidade do momento vivido pelos profissionais de saúde. A tensão, o medo e a incerteza dominavam os dias, sem que houvesse tempo para escolhas ou preparos específicos.

Durante os primeiros meses, a equipe médica enfrentou uma situação de comando e ação urgente. Muitos profissionais, mesmo aqueles de especialidades distintas, receberam a missão de atuar em unidades de terapia intensiva, uma situação inédita para muitos, que exigia rápida adaptação. O volume de óbitos crescia de forma acelerada e as estratégias iniciais de tratamento mostraram-se insuficientes. A sensação de impotência se consolidou à medida que as tentativas de conter a doença não surtiam efeito e os números de mortos acumulavam-se, tornando-se rotina comunicar perdas a familiares em ligações dolorosas.

A liderança do governo federal na época foi marcada por declarações e atitudes que minimizavam a gravidade da pandemia, incluindo deboches às medidas de isolamento, críticas às vacinas e ações que minimizaram a importância da ciência. Enquanto isso, a busca por uma solução efetiva se intensificava. A vacina contra a Covid, inicialmente oferecida por empresas internacionais, demorou a chegar ao Brasil, que só começou a imunizar sua população em janeiro de 2021, mesmo com várias nações já priorizando a vacinação desde o final de 2020. Nesse período, a profissional testemunhou o impacto dessa demora, com muitas famílias enfrentando a perda de entes queridos e ela mesma assinando dezenas de declarações de óbito mensalmente.

Atualmente, o balanço oficial registra mais de 700 mil vidas perdidas no país, números que representam uma dor profunda para aqueles que se dedicaram à linha de frente. O momento é de reflexão sobre os desdobramentos da crise e das decisões tomadas na época, além de um alerta sobre a importância de ações coordenadas e fundamentadas na ciência para prevenir futuras crises de saúde pública.


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